"Talvez
você se admire de que eu, velho dromedário da imprensa,
não tenha procurado um jornal para expor estas minhas idéias.
Amigo: entre nós que ninguém nos ouve, eu lhe conto
um segredo: todos os grandes órgãos 'impolutos' do
Rio e de São Paulo estão vendidos à Standar
Oil (na atualidade Monsanto). Todos.
Dentre os jornalistas atuais do Brasil, nenhum, talvez, haja escrito
tanto e tão assiduamente quanto eu. Faleceu no dia 10 de
dezembro de 1954 o primeiro chefe que tive na imprensa, em 1918,
— o meu dileto Cândido Campos. Desde essa remota era
paleolítica até hoje fui, nas redações
do Rio e de São Paulo, um inconformado, um descrente das
virtudes do jornalismo, um guerrilheiro solitrio. Liberdade de imprensa?
Mito! Mito! Desde que, com o desenvolvimento da Revolução
Industrial, a gazeta veiculadora de notícias de fins do século
XIX se transformou em grande empresa de publicidade, o dono de um
diário, no Rio ou em São Paulo, manobra o seu negócio
com o mesmo senso de oportunismo com que um industrial de sapatos
manobra a sua fábrica. Jornal vende espaço. Vive de
anúncio. Precisa apenas do escriba para lhe valorizar esse
anúncio intercalando-o de artigos interessantes, de anedotas
ou até de poesias. Não lhe permite, porém,
que exponha idéias, desde que tais idéias colidam
com as da casa, isto é, — com as do balcão.
No Brasil, a imprensa urbana 'sadia' de São Paulo e do Rio
de Janeiro, ou se vende, ou quebra. Jornal algum desses dois grandes
centros pode ser, simultaneamente, honesto e próspero. Por
quê ?
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