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| - Elas estão vestidas... de nós.
- Como assim, Marshall?
Ele falou bem devagar, para garantir que eu entendesse:
- Estão... nos... provando.
Mas as tiradas de três linhas e o seminário sobre cultura pop nada
eram comparados ao que veio a seguir, no rastro da morte de Teilhard,
ou seja: o macluhanismo.
O macluhanismo era a síntese que Marshall fazia das idéias de dois
homens. Um era um compatriota seu, o historiador econômico
canadense Harold lnnis, que escrevera dois livros argumentando que
as novas tecnologias eram as forças primordiais e fundamentais que
guiavam a história humana. O outro era Teilhard. McLuhan sempre
citava de forma muito escrupulosa quem o influenciava; tanto assim
que descreveu seu primeiro livro sobre a teoria da comunicação,
A galáxia de Gutenberg, como "uma nota
de rodapé à obra de Harold lnnis". No caso de Teilhard, porém, ele
viu-se em apuros. Sua "aldeia global" nada mais era do que a "noosfera" de Teilhard, mas a Igreja declarara
que a obra de Teilhard era heterodoxa, e McLuhan não era meramente
católico; ele se convertera ao catolicismo. Fora criado como batista,
mas se convertera enquanto estudava em Cambridge, na Inglaterra,
na década de 1930. Era a época florescente dos grandes intelectuais
literários católicos, G. K. Chesterton e Hilaire Belloc. Como a
maioria dos convertidos, McLuhan era altamente devoto. E por isso,
em seus próprios escritos ele não mencionava Teilhard, nem a teoria
da evolução em duas etapas que era o alicerce da visão de mundo
de Teilhard. Uma única referência, um mero obiter dictum, atribuía
alguma significação religiosa à aldeia global. "0 conceito cristão
do corpo místico - todos os homens como membros do |
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corpo de Cristo - torna-se tecnologicamente um fato sob condições
eletrônicas."
Não tenho a menor dúvida de que seu fascínio pela televisão vinha
da possibilidade que o veículo tinha de tornar realidade o sonho
de Teilhard: a unidade cristã de todas as almas na Terra. Ao mesmo
tempo, McLuhan sabia bem que estava publicando suas obras principais,
A galáxia de Gutenberg (1962) e
Meios de comunicação como extensão do homem (1964), num momento
em que até o menor laivo de religiosidade era tabu, se ele quisesse
comandar o palco na comunidade intelectual. E isso, asseguro a todos,
ele queria fazer. Seu pai era um obscuro corretor de imóveis e de
seguros, mas sua mãe, Elsie, era uma atriz que excursionava pelo
Canadá fazendo leituras dramatizadas, e ele herdara o amor dela
pela ribalta. Por isso apresentou sua teoria em termos estritamente
leigos, argumentando que um veículo novo e dominante como a televisão
alterava a consciência humana ao mudar literalmente o que ele chamava
de "equilíbrio sensorial" do sistema nervoso central.
Por razões que jamais
ficaram claras para mim embora eu o houvesse questionado sobre o
assunto McLuhan considerava a televisão um veículo não visual, mas
"auditivo e tátil", que estava impelindo a nova geração televisiva
de volta ao que ele descrevia como uma mentalidade "tribal". São
assuntos que hoje pertencem ao reino da neurociência, que é o estudo
do cérebro e do sistema nervoso central. A neurociência fez um progresso
espetacular ao longo dos últimos vinte e cinco anos; hoje é o campo
mais quente na ciência e, por que não dizer, em todo o mundo acadêmico.
Mas os neurocientistas não estão sequer remotamente próximos de
conseguir determinar algo como o efeito da televisão sobre um indivíduo,
que dirá |
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sobre uma geração inteira. Isso não deteve McLuhan, nem a
propagação do macluhanismo, por um segundo sequer. Ele conseguiu
estabelecer o conceito de que veículos novos como a televisão tem
o poder de alterar a mente humana, e portanto a própria história.
Morreu após uma série de derrames em 1980, aos
sessenta e nove anos de idade, mais de uma década antes da criação
da Internet. Meu Deus - ah, se ele estivesse vivo hoje! Que paraíso
o momento atual seria para ele! Como ele teria adorado a Web. Em
que Oz cintilante ele teria transformado a sua aldeia global!
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| Projeto de publicação de textos inéditos
e reedição crítica
até o ano 2005 |
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Eric McLuhan,
filho do pensador canadense, é o responsável e diretor do projeto
iniciado em 2000 e que tem por previsão até o ano 2005, para a publicação
de textos inéditos, além de uma reedição crítica dos escritos mais
conhecidos. O jornal Folha de São Paulo publicou no sábado, dia
26/10/2002, na página E6, uma pequena entrevista com Eric, em que
ele faz algumas considerações sobre a importância atual da obra
de seu pai. A matéria tem como título "McLuhan retorna com a globalização".
FOLHA - Por que este retorno ao pensamento
de Marshall McLuhan?
McLuhan - Há um público interessado.
A maioria das pessoas que se opuseram ao trabalho de Marshall McLuhan,
nos anos 60 e 70, já se retiraram da vida acadêmica, e uma nova
geração passou a ler seus livros com muito mais frescor, descobrindo
como o seu conteúdo pode ser relevante para a situação que vivemos.
McLuhan parece ser o único ao redor que indicou a maneira pela qual
essas novas mídias podem ser estudadas. Ele está em um ponto de
redescobrimento. Na verdade, parte do mundo universitário ainda
não o aceita, talvez por ele ter possuído uma mente extremamente
independente.
FOLHA -
Mas sua obra vem recuperando espaço na academia?
McLuhan - A academia ainda não gosta
de McLuhan, porque não gosta de celebridades. Desconfia delas. Ou
talvez haja ciúme, não sei exatamente como explicar.
FOLHA
- A Internet seria responsável pelo interesse renovado por McLuhan?
McLuhan - Acredito que sim. Ele
falava da mídia eletrônica como uma extensão do corpo humano. E
o sistema nervoso é a internet. Ele falava dessa situação em uma
escala global, como no conceito de "aldeia global". McLuhan está
de volta porque a globalização é um fato. As nova gerações descobrirão
um novo tipo de imaginação. O trabalho de McLuhan começa com a literatura;
ele era professar da disciplina, voltado para a era elisabetana,
e vivia nos anos 60 do século 20. Ele não era alguém interessado
em tecnologia, mas alguém voltado para as pessoas, para o potencial
do homem.
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As três décadas finais da vida de Teilhard desenrolaram-se
com a mesma e invariável frustração. Ele terminou meia dúzia de
livros, inclusive sua maior obra, The Phenomenon of Man (O
fenômeno humano). A Igreja não permitiu que ele a publicasse,
e manteve-o perpetuamente exilado da Europa e de sua amada Paris.
Seus poucos prazeres e confortos vinham da generosidade de mulheres,
que permaneceram atraídas por ele até na velhice. Imediatamente
após sua morte, sua secretária parisiense, Jeanne Mortier, a quem
ele legara seus documentos, começou a publicar seus escritos, inclusive
O fenômeno humano, em ritmo constante.
Ninguém prestou mais atenção a esse jorro de obras de Teilhard do
que um professor de literatura de St. Michael's chamado Marshall
McLuhan. McLuhan já era uma espécie de astro na Universidade de
Toronto quando Teilhard morreu. Inventara um seminário extracurricular
sobre cultura popular, e atraía multidões ao pontificar sobre tópicos
como o uso do sexo na propaganda; fora esse discurso que levara
ao seu primeiro livro, The Mechanical Bride (A noiva mecânica),
em 1951. Era um homem alto, magro, e bonito à moda dos rapazes escoceses,
que desempenhava com perfeição o papel do reitor espirituoso, soltando
secas tiradas de três linhas - não de uma |
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linha, mas de três - que as pessoas não conseguiam esquecer.
Certa vez perguntei a ele de que forma Pierre Trudeau conseguia
manter-se no poder como primeiro-ministro em meio a todo o tumulto
da política canadense. Sem qualquer sombra de sorriso, McLuhan respondeu:
"Ele tem um nome francês, pensa feito um inglês e parece um índio.
Todos nós nos sentimos muito culpados em relação aos índios aqui
no Canadá."
De outra vez eu estava em San Francisco, fazendo matérias tanto
sobre McLuhan quanto sobre os restaurantes topless, já que ambos
eram fenômenos novos. Tive a brilhante idéia de levar o grande teórico
das comunicações a um restaurante topless chamado Off Broadway.
Nenhum de nós já vira aquele tipo de coisa. Havia dezenas
de empresários de ternos surrados esgueirando-se pelas mesas no
escuro, enquanto refletores seguiam as garçonetes. Todas tinham
seios espantosamente aumentados com silicone; e usavam apenas saltos
altos, um tapa-sexo e ruge nos mamilos. Francamente, eu fiquei chocado
e sem fala. McLuhan não.
- Muito interessante - disse ele.
- O quê, Marshall?
Ele meneou a cabeça em direção à garçonete. |
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