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Eric McLuhan, filho de McLuhan, é responsável pelo projeto que até o ano de 2005 tem por objetivo não só a reedição das principais obras do pai, mas também pela publicação de uma quantidade incalculável de textos, pequenos ensaios, ainda desconhecidos. Segundo ele, uma nova geração, não mais influenciada pelas críticas acadêmicas, tem manifestado um grande interesse, até mesmo em função de toda a discussão sobre aspectos da globalização.

3. McLuhan leitor de Teilhard


 
- Elas estão vestidas... de nós.
- Como assim, Marshall?
Ele falou bem devagar, para garantir que eu entendesse:
- Estão... nos... provando.
Mas as tiradas de três linhas e o seminário sobre cultura pop nada eram comparados ao que veio a seguir, no rastro da morte de Teilhard, ou seja: o macluhanismo.
O macluhanismo era a síntese que Marshall fazia das idéias de dois homens.
Um era um compatriota seu, o historiador econômico canadense Harold lnnis, que escrevera dois livros argumentando que as novas tecnologias eram as forças primordiais e fundamentais que guiavam a história humana. O outro era Teilhard. McLuhan sempre citava de forma muito escrupulosa quem o influenciava; tanto assim que descreveu seu primeiro livro sobre a teoria da comunicação, A galáxia de Gutenberg, como "uma nota de rodapé à obra de Harold lnnis". No caso de Teilhard, porém, ele viu-se em apuros. Sua "aldeia global" nada mais era do que a "noosfera" de Teilhard, mas a Igreja declarara que a obra de Teilhard era heterodoxa, e McLuhan não era meramente católico; ele se convertera ao catolicismo. Fora criado como batista, mas se convertera enquanto estudava em Cambridge, na Inglaterra, na década de 1930. Era a época florescente dos grandes intelectuais literários católicos, G. K. Chesterton e Hilaire Belloc. Como a maioria dos convertidos, McLuhan era altamente devoto. E por isso, em seus próprios escritos ele não mencionava Teilhard, nem a teoria da evolução em duas etapas que era o alicerce da visão de mundo de Teilhard. Uma única referência, um mero obiter dictum, atribuía alguma significação religiosa à aldeia global. "0 conceito cristão do corpo místico - todos os homens como membros do
 
corpo de Cristo - torna-se tecnologicamente um fato sob condições eletrônicas."
Não tenho a menor dúvida de que seu fascínio pela televisão vinha da possibilidade que o veículo tinha de tornar realidade o sonho de Teilhard: a unidade cristã de todas as almas na Terra. Ao mesmo tempo, McLuhan sabia bem que estava publicando suas obras principais, A galáxia de Gutenberg (1962) e Meios de comunicação como extensão do homem (1964), num momento em que até o menor laivo de religiosidade era tabu, se ele quisesse comandar o palco na comunidade intelectual. E isso, asseguro a todos, ele queria fazer. Seu pai era um obscuro corretor de imóveis e de seguros, mas sua mãe, Elsie, era uma atriz que excursionava pelo Canadá fazendo leituras dramatizadas, e ele herdara o amor dela pela ribalta. Por isso apresentou sua teoria em termos estritamente leigos, argumentando que um veículo novo e dominante como a televisão alterava a consciência humana ao mudar literalmente o que ele chamava de "equilíbrio sensorial" do sistema nervoso central. Por razões que jamais ficaram claras para mim embora eu o houvesse questionado sobre o assunto McLuhan considerava a televisão um veículo não visual, mas "auditivo e tátil", que estava impelindo a nova geração televisiva de volta ao que ele descrevia como uma mentalidade "tribal". São assuntos que hoje pertencem ao reino da neurociência, que é o estudo do cérebro e do sistema nervoso central. A neurociência fez um progresso espetacular ao longo dos últimos vinte e cinco anos; hoje é o campo mais quente na ciência e, por que não dizer, em todo o mundo acadêmico. Mas os neurocientistas não estão sequer remotamente próximos de conseguir determinar algo como o efeito da televisão sobre um indivíduo, que dirá
 
sobre uma geração inteira. Isso não deteve McLuhan, nem a propagação do macluhanismo, por um segundo sequer. Ele conseguiu estabelecer o conceito de que veículos novos como a televisão tem o poder de alterar a mente humana, e portanto a própria história. Morreu após uma série de derrames em 1980, aos sessenta e nove anos de idade, mais de uma década antes da criação da Internet. Meu Deus - ah, se ele estivesse vivo hoje! Que paraíso o momento atual seria para ele! Como ele teria adorado a Web. Em que Oz cintilante ele teria transformado a sua aldeia global!
 
Projeto de publicação de textos inéditos
e reedição crítica
até o ano 2005
   
Eric McLuhan, filho do pensador canadense, é o responsável e diretor do projeto iniciado em 2000 e que tem por previsão até o ano 2005, para a publicação de textos inéditos, além de uma reedição crítica dos escritos mais conhecidos. O jornal Folha de São Paulo publicou no sábado, dia 26/10/2002, na página E6, uma pequena entrevista com Eric, em que ele faz algumas considerações sobre a importância atual da obra de seu pai. A matéria tem como título "McLuhan retorna com a globalização".
FOLHA - Por que este retorno ao pensamento de Marshall McLuhan?
McLuhan -
Há um público interessado. A maioria das pessoas que se opuseram ao trabalho de Marshall McLuhan, nos anos 60 e 70, já se retiraram da vida acadêmica, e uma nova geração passou a ler seus livros com muito mais frescor, descobrindo como o seu conteúdo pode ser relevante para a situação que vivemos. McLuhan parece ser o único ao redor que indicou a maneira pela qual essas novas mídias podem ser estudadas. Ele está em um ponto de redescobrimento. Na verdade, parte do mundo universitário ainda não o aceita, talvez por ele ter possuído uma mente extremamente independente.
FOLHA - Mas sua obra vem recuperando espaço na academia?
McLuhan - A academia ainda não gosta de McLuhan, porque não gosta de celebridades. Desconfia delas. Ou talvez haja ciúme, não sei exatamente como explicar.
FOLHA - A Internet seria responsável pelo interesse renovado por McLuhan?
McLuhan - Acredito que sim. Ele falava da mídia eletrônica como uma extensão do corpo humano. E o sistema nervoso é a internet. Ele falava dessa situação em uma escala global, como no conceito de "aldeia global". McLuhan está de volta porque a globalização é um fato. As nova gerações descobrirão um novo tipo de imaginação. O trabalho de McLuhan começa com a literatura; ele era professar da disciplina, voltado para a era elisabetana, e vivia nos anos 60 do século 20. Ele não era alguém interessado em tecnologia, mas alguém voltado para as pessoas, para o potencial do homem.

 
As três décadas finais da vida de Teilhard desenrolaram-se com a mesma e invariável frustração. Ele terminou meia dúzia de livros, inclusive sua maior obra, The Phenomenon of Man (O fenômeno humano). A Igreja não permitiu que ele a publicasse, e manteve-o perpetuamente exilado da Europa e de sua amada Paris. Seus poucos prazeres e confortos vinham da generosidade de mulheres, que permaneceram atraídas por ele até na velhice. Imediatamente após sua morte, sua secretária parisiense, Jeanne Mortier, a quem ele legara seus documentos, começou a publicar seus escritos, inclusive O fenômeno humano, em ritmo constante.
Ninguém prestou mais atenção a esse jorro de obras de Teilhard do que um professor de literatura de St. Michael's chamado Marshall McLuhan. McLuhan já era uma espécie de astro na Universidade de Toronto quando Teilhard morreu. Inventara um seminário extracurricular sobre cultura popular, e atraía multidões ao pontificar sobre tópicos como o uso do sexo na propaganda; fora esse discurso que levara ao seu primeiro livro, The Mechanical Bride (A noiva mecânica), em 1951. Era um homem alto, magro, e bonito à moda dos rapazes escoceses, que desempenhava com perfeição o papel do reitor espirituoso, soltando secas tiradas de três linhas - não de uma
 
linha, mas de três - que as pessoas não conseguiam esquecer.
Certa vez perguntei a ele de que forma Pierre Trudeau conseguia manter-se no poder como primeiro-ministro em meio a todo o tumulto da política canadense. Sem qualquer sombra de sorriso, McLuhan respondeu: "Ele tem um nome francês, pensa feito um inglês e parece um índio. Todos nós nos sentimos muito culpados em relação aos índios aqui no Canadá."
De outra vez eu estava em San Francisco, fazendo matérias tanto sobre McLuhan quanto sobre os restaurantes topless, já que ambos eram fenômenos novos. Tive a brilhante idéia de levar o grande teórico das comunicações a um restaurante topless chamado Off Broadway. Nenhum de nós já vira aquele tipo de coisa. Havia dezenas de empresários de ternos surrados esgueirando-se pelas mesas no escuro, enquanto refletores seguiam as garçonetes. Todas tinham seios espantosamente aumentados com silicone; e usavam apenas saltos altos, um tapa-sexo e ruge nos mamilos. Francamente, eu fiquei chocado e sem fala. McLuhan não.
- Muito interessante - disse ele.
- O quê, Marshall?
Ele meneou a cabeça em direção à garçonete.
 
 
     
 
Teilhard de Chardin
1881/1955
 
É a partir das idéias do livro O Fenômeno Humano, que McLuhan constrói suas concepções. No capítulo III, O Pensamento, o padre Teilhard de
     
Chardin destaca, o que ele denomina, "O Desdobramento da Noosfera". É daí que sai uma grande parte das noções que irão dar origem ao conceito de ALDEIA GLOBAL.


E o livro A visão de Teilhard de Chardin, escrito pelo padre Peter Smulders, editado pela Vozes, em 1965, explica toda a importância do pensamento de Teilhard. É um livro só possível de ser encontrado nos sebos.