"Que as autoridades, como os autoritários que as invejam, mentem sistematicamente não é nenhuma novidade. Karl Kraus e George Orwell o disseram. Mas elas refinaram, ou ao menos aumentaram, seus embustes. Nossa complexa sociedade, baseada no consentimento por coerção, criou modos de manipulação tão avançados que a falsidade pode ser minimizada, até eliminada sem que a verdade venha à tona. O sistema simplesmente nos inunda com informações tão triviais que chegam a merecer o nome desgastado de 'dados', até que os poucos assuntos de importância real sejam expulsos da mente. A escala e a estrutura da sociedade evitam que as pessoas experimentem imediatamente a ela ou umas às outras. O conhecimento é fragmentado em ilhas artificiais e confiado a especialistas endógamos. No mundo acadêmico, essas exclusividades merecem as conotações sadomasoquistas da denominação que recebem, 'disciplinas'. A divisão social da mão-de-obra - estilhaçando uma vida que deveria ser experimentada integralmente em 'papéis' padronizados à força -, estendida à consciência, se reproduz ' ao mesmo tempo que oculta sua passagem." (pág.55)