"A
Associação para a anarquia ontolológica conclama
um boicote de todos os produtos comercializados sob a senha de
LIGHT - cerveja, carne, doces, comésticos, música,
'estilos de vida' pré-fabricados, o que for. O conceito
de LIGHT (no Jargão situacionista) desdobra um complexo
de simbolismos através do qual o Espetáculo espera
controlar toda a repulsa contra o seu mercantilismo do desejo.
O produto 'natural', 'orgânico', 'saudável' é
designado para um setor do mercado constituído por pessoas
levemente insatisfeitas que apresentam um quadro mediano de horror
do futuro & possuem uma aspiração mediana por
uma autenticidade tépida. Um nicho foi preparado para você,
suavemente iluminado pelas ilusões de simplicidade, limpeza,
elegância, uma pitada de ascetismo & autonegação.
Claro, custa um pouco mais caro... afinal, o que é LIGHT
não foi feito para primitivos pobres & famintos que
ainda consideram...
|
|
|
comida nutrição & não décor. Tem
de custar mais — senão, você não compraria.
A classe média americana (não sofisme, você
sabe o que quero dizer) divide-se naturalmente em duas facções
opostas, mas complementares: os exércitos da Anorexia &
os da Bulimia. Casos clínicos dessas doenças representam
apenas a espuma psicossomática sobre a onda de uma patologia
cultural profunda, difusa & amplamente inconsciente. Os que
sofrem de bulimia são os yuppies que se fartam com margaritas
& videocassetes, & depois se purgam com alimentos LIGHT,
jogging & ginástica (an)aeróbica. Os anorexos
são rebeldes por um "estilo de vida", seguidores
da última moda em alimentação, comedores de
algas, tristes, desespiritualizados & abatidos — mas presunçosos
em seu zelo puritano & em seus instrumentos de autoflagelo com
design sofisticado. A grotesca junk food simplesmente representa
o outro lado da vampiresca healthfood: — nada tem gosto... |
|
|
de
nada que não seja isopor ou aditivos — tudo é
ou entediante ou cancerígeno — ou ambos — &
incrivelmente estúpido. Seja ela crua ou cozida, a comida
não pode escapar do simbolismo. Ela, & simultaneamente
também representa, aquilo que é. Toda comida é
comida para a alma; ignorar isso é cortejar uma indigestão,
tanto crônica quanto metafísica. Mas na abóbada
sem ar da nossa civilização, em que praticamente toda
experiência é mediada, em que a realidade é
filtrada através da malha mortífera da percepção-consenso,
perdemos o contato com a comida como nutrição; começamos
a construir para nós mesmos personas baseadas naquilo que
consumimos, tratando produtos como projeções da nossa
aspiração pelo autêntico. A AAO às vezes
visualiza o CAOS como uma cornucópia de criação
contínua, um tipo de gêiser de generosidade cósmica.
Portanto evitamos advocar qualquer dieta específica, a última
coisa que queremos é ofender a... |
|
|
Sagrada Multiplicidade & a Divina Subjetividade. Não
vamos azucriná-los com mais uma prescrição
New Age para a saúde perfeita (só os mortos têm
saúde perfeita); temos interesse pela vida, não por
'estilos de vida'. Adoramos leveza verdadeira, & o denso &
elaborado nos deleitam na sua hora apropriada. O excesso nos cai
perfeitamente; a moderação nos agrada, & aprendemos
que a fome pode ser o mais fino dos temperos. Tudo é leve,
& as flores mais exuberantes crescem ao redor da privada. Sonhamos
com mesas falansterianas & com os cafés de Bolo'Bolo
onde todo grupo festivo de convivas compartilhará a genialidade
individual de um BrilIat-Savarin40 (aquele santo do bom gosto).
O xeque Abu Sa'id41 nunca economizou dinheiro ou mesmo guardou-o
de um dia para o outro - portanto, sempre que algum patrono doava
uma quantia generosa para a sua fraternidade de religiosos, os dervixes
celebravam com um banquete; &, nos outros dias, todos passavam
fome.
|
|
|
A
idéia era apreciar os dois estados, cheio & vazio...
O produto LIGHT faz uma paródia do vazio espiritual &
da iluminação, assim como o McDonalds traveste o imaginário
da completitude & da celebração. O espírito
humano (para não mencionar a fome) pode conquistar &
transcender todo esse fetichismo — a alegria pode irromper
mesmo num Burger King, & até uma cerveja LIGHT talvez
esconda uma dose dionisíaca. Mas por que deveríamos
continuar lutando contra esta maré suja de produtos insossos,
fajutos & caros, quando poderíamos estar bebendo o vinho
do Paraíso agora mesmo, sob nossas próprias parreiras
& figueiras? A comida pertence ao reino da vida diária,
a arena principal de todo ato» insurrecional de tornar-se
poderoso, de toda auto-elevação espiritual, de toda
ré- tomada do prazer, de toda revolta contra a Máquina
Planetária do Trabalho & seus desejos de imitação.
Mantenhamo-nos longe de todo dogmatismo. Que o 'caçador de
uma tribo indígena americana... |
|
|
possa
alimentar sua alegria com um esquilo frito; & o anarco-taoísta,
com um punhado de damascos secos. Milarepa, { o tibetano, depois
de dez anos de sopa de macarrão, comeu um bolo de manteiga
& alcançou a iluminação. Um bronco não
percebe eros nenhum num champanhe 'fino; um feiticeiro pode se embriagar
com um copo d'água. Nossa cultura, asfixiando-se em seus
próprios poluentes, grita (como Goethe gritou por luz ao
morrer) 'Mais LIGHT!'— como se esses efluentes poliinsaturados
pudessem de algum modo aliviar nosso sofrimento, como se a sua insossa
falta de peso, paladar & características pudesse nos
proteger da escuridão crescente. Não! Esta última
ilusão finalmente nos parece cruel demais. Apesar de nossas
próprias tendências indolentes somos forçados
a nos posicionar & protestar. Boicote! Boicote! |
|
|
|
|
|