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heréticos e malditos

parábola de 1818

“Essas suposições fazem ver que a sociedade atual é, na verdade, um mundo invertido: porque a nação admitiu por princípio que os pobres devem ser generosos com os ricos e que, em consequüência, os menos abastados se privem diariamente de uma parte do que lhes é necessário para aumentar o supérfluo dos grandes proprietários; porque os maiores criminosos, os grandes ladrões, os que oprimem a totalidade dos cidadãos e que lhes tomam trezentos ou quatrocentos milhões por ano, acham-se encarregados de punir os pequenos delitos contra a sociedade; porque a ignorância, a supertição, a preguiça e o gosto pelos prazeres dispendiosos formam o apanágio dos chefes supremos da sociedade, enquanto as pessoas capazes, econômicas e laboriosas são empregadas apenas como subalternas e como instrumentos. Porque, em uma palavra, em todos os gêneros de ocupação, são os homens incapazes que se encontram encarregados da tarefa de dirigir as pessoas capazes; porque são, do ponto de vista das relações de moralidade, os homens mais imorais que são chamados a impor aos cidadãos a virtude e, do ponto de vista da justiça, os maiores criminosos que são os encarregados de punir as faltas dos pequenos delinquentes”.

Saint-Simon  1760/1825

Claude-Henry de Rouvroy, conde de Saint-Simon, nasceu em Paris, filho de pais aristocráticos. Muito jovem, porém, rompeu com a família, entrando para o Exército (1777) e combatendo ao lado dos americanos na Guerra de Independência dos Estados Unidos (1781). Chegou a enriquecer como especulador, mas depois arruinou-se; aliou-se a Napoleão, durante os Cem Dias, e fez cerrada oposição aos Bourbon. Expoente do socialismo utópico, sua influência no pensamento francês do século XIX foi muito grande; entre seus discípulos, contam-se o filósofo Auguste Comte e o historiador Auguste Tierry.

Este é um trecho do texto Parábola, de Saint-Simon, extraído do livro ”Utópicos, heréticos e malditos”, organização de Aloisio Teixeira, editora Record.

a história do olho

 

“Fui criado sozinho e, até onde me lembro, vivia angustiado pelas coisas do sexo. Tinha quase dezesseis anos quando conheci uma garota da minnha idade, Simone, na praia de x. Nossas famílias descobriram um parentessco longínquo e nossas relações logo se precipitaram. Três dias depois de nosso primeiro encontro. Simone e eu estávamos a sós em sua casa de campo. Ela vestia um avental preto, e usava uma gola engomada. Comecei a me dar conta de que ela partilhava minha angústia, bem mais forte naquele dia em que ela parecia estar nua sob o avental. Suas meias de seda preta subiam acima do joelho. Eu ainda não tinha conseguido vê-la até o cu ( esse nome, que eu sempre empregava com Simone, era para mim o mais belo entre os nomes do sexo). Imaginava apenas que, levantando o avental, contemplaria a sua buda pelada. Havia no corredor um prato de leite para o gato.
- Os pratos foram feitos para a gente sentar – disse Simone.

Quer apostar que eu me sento no prato?

- Duvido que você se atreva – respondi ofegante.

Fazia calor. Simone colocou o prato num banquinho, instalou-se à minha frente e, sem desviar dos meus olhos, sentou-se e mergulhou a bunda no leite. Por um momento fiquei imóvel, tremendo, o sangue subindo à cabeça, enquanto ela olhava meu pau se erguer na calça. Deitei-me a seus pés. Ela não se mexia; pela primeira vez, vi sua ‘carne rosa e negra’  banhada em leite branco. Permanecemos imóveis por muito tempo, ambos ruborizados.

De repende, ela se levantou: o leite escorregou por suas coxas até as meias. Enxugou-se com um lenço, por cima de minha cabeça, com um pé no banquinho. Eu esfregava o pau, me remexando no assoalho.

Gozamos no mesmo instante, sem nos tocarmos. Porém quando sua mãe retornou, sentando-me numa poltrona baixa, aproveitei um momento em que a menina se aninhou nos braços maternos: sem ser visto, levantei o avental e enfiei a mão por entre suas coxas quentes.

Voltei para casa correndo , louco para bater uma punheta de novo. No dia seguinte, amanheci de olheiras. Simone me olhou de frente, escondeu a cabeça contra o meu ombro e disse: ‘ Não quero mais que você bata puheta sem mim.’

Assim começou entre nós uma relação amorosa tão íntima e tão urgente que raramente passamos uma semana sem nos ver. De certa forma, nunca falamos disso. Percebo que ela tem , na minha presença sentimentos semelhantes aos meus, difíceis de descrever. Lembro-me de um dia em que passeávamos de carro em alta velocidade. Atropelei um ciclista jovem e bela, cujo pescoço quase foi arrancado pelas rodas. Contemplamos a morta por um bom tempo. O horror e o desespero que exalavam aquelas carnes, em parte repugnantes , em parte delicadas, recordam os sentimentos…”

sobre minhas leituras de Bataille

(texto de junho de 2004) 

 

Nos últimos 15 anos tenho lido, sistematicamente, todos os textos de George Bataille (1897/1962), em seguida que são publicados. E, cada um destes textos, estabelece rupturas, verdadeiras brechas, pela forma surpreendente, desconsertante com que algumas das mais importantes questões de nosso tempo são abordadas. São textos viscerais. Não temos a pretensão de nos colocarmos entre os que se consideram grandes conhecedores do pensamento de Bataille. Ao contrário, a cada leitura, ou ainda, quando da publicação de um texto inédito ou de uma reedição, somos empurrados para uma nova (re) leitura; e, por isso mesmo, este é um autor do qual nunca conseguimos nos distanciar. A recente reedição de “História do Olho”, pela Cosac& Naify desencadeou, mais uma vez, este processo, sendo que acompanha – desta vez – os ensaios de Michel Leiris, Roland Barthes e Julio Cortázar. Com uma certa doze de paciência e sorte é possível garimpar alguns destes livros nos sebos. ” O ânus solar” é uma edição portuguesa , da Hiena Editora, de 1985, com uma tiragem de apenas 1000 exemplares. Desconheço a existência de uma edição brasileira. “A Experiência interior”, da editora Ática está esgotado, assim como quase todos os outros. “A Parte Madita”, precedida de ” A Noção de Despesa” é uma leitura obrigatória, ainda hoje. (wu)

 

 

 

“o apanhador no campo de centeio” (1919/2010)

Em 2001 quando completava 50 anos da publicação do “Apanhador no Campo de Centeiro”, de J.D. Salinger, o jornal Folha de São Paulo publicou algumas matérias sobre a obra do escritor-eremita. Entre 1951 e 53, o livro que relata 48 horas do estudante Holden Caulfield vendeu 15 milhões de exemplares, e, até hoje, é considerado o primeiro e mais importante romance moderno sobre a crise da adolescência. Salinger após a publicação do livro foi morar, completamente, isolado numa montanha, não permitindo qualquer aproximação. Não se deixa fotografar e não concede entrevistas. Lançou outros três livros e, desde 1965, não publica nada, embora às vezes circulem boatos de que estaria para ser editado mais um livro. A editora dele desmente e não responde quaisquer perguntas sobre o autor. Ele tem 84 anos e a localidade onde se esconde é Cornish, no estado de New Hampshire. Entre nós, os seus livros, sempre com edições de pequenas tiragens, durante muito tempo tornaram-se raridades nos sebos. Em 1984, a editora Brasiliense publicou “Pra Cima com a Viga, Moçada”, o mesmo texto foi reeditado pela Companhia das Letras, em 2001, com o título “Carpinteiros, levantem bem alto a cumieira e Seymour: uma apresentação”. Tanto esta edição da Companhia, como a do “Apanhador no Campo de Centeio”, da editora do Autor, também de 1991, estão hoje à disposição nas livrarias. São pouquíssimos os jovens que possuem referências, tanto sobre estes livros como sobre o autor. Mas acredito que sugerindo esta pista alguns possam descobrir estes textos maravilhosos.(wu)

Em 2001, quando da passagem dos 50 anos do lançamento do “Apanhador”, a editora Companhia das Letras reeditou o “Para cima com a Vida”, mas com o título “Carpinteiros, levantam bem alto a cumieira.

 

 

 

Este é um livro curioso. Ian Hamilton foi editor de várias publicações, mas em especial da The New Review Anthology. Ele conta no livro “Em Busca de J. D. Salinger”, as suas várias tentativas e dificuldades para escrever uma biografia.

 

 

Esta é uma edição de 1984, da Brasiliense e que durante muito tempo foi disputada nos sebos, livrarias de livros usados. Quando da edição a repercussão foi pequena. Só um pequeno número de fãs do escritor que adquiriu exemplares.

 

 

 

 

Em 2001, a editora do Autor colocou nas livrarias a décima terceira edição do “Apanhador no Campo de Centeio”, sendo que em 1951 o livro foi lançado nos EUA , e, em menos de dois anos, foram vendidos mais de 15 milhões de exemplares.

As fotos da coluna da esquerda: 1- 1926/ quatro homens andando sobre a ponte do Brooklyn a Nova Nova York; 2 – 1929/ operários descansam depois do almoço em uma rua de Londres; 3 – 1929 operários trabalham em uma máquina de produção de macarrão na Itália; 4- 1927 mulheres trabalham na produção de alimentos no período da primeira guerra mundial.

 

 

 

 

DESTAQUE PARA CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE CARPENTIER

Em janeiro de 2005, por razões que não lembramos, a edição da revista eletrônica Pontodevista ficou limitada a poucas matérias em função de algum problema de ordem técnica. De qualquer forma vale a pena um “passeio”  pela revista de número 31. Uma boa leitura. E um bom final de semana. EDIÇÃO DE NÚMERO 31 É AQUI.  Os leitores que estiveram acompanhado esta série de (re)edições terão todas as condições de avaliarem o quanto foi importante para o PRBS/jornal Zero Hora impor o silêncio a Pontodevista.  As ações, movidas na Justiça por um funcionário com 35 anos de firma, caiu como luva para impedir nossa atividade guerrilheira.  Não estamos curtindo uma de vítima.