“A beleza será convulsiva, ou não será.”
”Nada dos inóspitos rochedos de outrora, onde criaturas monstruosas ameaçam solitários viajantes. Quando André Breton publica Nadja, em 1928, os inigmas humanos já ecoam em novo endereço há tempo. É nas cidades que eles repercutem, quase sempre nos ouvidos de caminhantes entregues aos próprios devaneios em meio ao burburinho da multidão. Pelo menos desde meados do século XX, as modernas capitais européias se convertem em espaços privilegiados das grandes interrogações metafísicas, acolhendo a inquietude dos espíritos sensíveis que não cessam de explorar suas esquinas mais obscura. Nessa cartografia, de referências a um só tempo concretas e imaginárias, a cidade de Paris ocupa um lugar especial, sobretudo nos escritos literários que não raro a envolvem em misteriosa aura.”
“Justamente agora, nos últimos dias de 1903, dois físicos franceses, Gaumon e Decaux, acabam de achar uma engenhosa combinação do fonógrafo e do cinematógrafo — o cronófono —, que talvez ainda venha a revolucionar a indústria da imprensa diária e periódica. Diante do aparelho, uma pessoa pronuncia um discurso: o cronófono recebe e guarda esse discurso e, daí a pouco, não somente repete todas as suas frases, como reproduz, sobre uma tela branca, a figura do orador, a sua fisionomia, os seus gestos, a expressão da sua face, a mobilidade dos seus olhos e dos seus lábios. Talvez o jornal do futuro seja uma aplicação dessa descoberta… A atividade humana aumenta, numa progressão pasmosa. Já os homens de hoje são forçados a pensar e executar, em um minuto, o que seus avós pensavam e executavam em uma…
hora. A vida moderna é feita de relâmpagos no cérebro, e de rufos de febre no sangue. O livro está morrendo, justamente porque pouca gente pode consagrar um dia todo, ou ainda uma hora toda, à leitura de cem páginas impressas sobre o mesmo assunto. Talvez o jornal do futuro — para atender à pressa, à ansiedade, à exigência furiosa de informações completas, instantâneas e multiplicadas – seja um jornal falado, e ilustrado com projeções animatográficas, dando, a um só tempo, a impressão auditiva e visual dos acontecimentos, dos desastres, das catástrofes, das festas, de todas as cenas alegres ou tristes, sérias ou fúteis, desta interminável e complicada comédia, que vivemos a representar no imenso tablado do planeta”. (Olavo Bilac, Revista Kosmos, n.1 em janeiro de 1904) / Págs. 27 e 28
“Videologias”, de Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl, editado pela Boitempo com apresentação de Marilena Chaui reúne um conjunto de ensaios da maior importância para pensarmos a questão do poder das imagens e, por conseguinte, o poder da televisão nos tempos atuais. O livro revela que o poeta Olavo Bilac, em uma crônica na Revista Kosmos, em 1904, faz uma “despretenciosa profecia”

“Fui criado sozinho e, até onde me lembro, vivia angustiado pelas coisas do sexo. Tinha quase dezesseis anos quando conheci uma garota da minnha idade, Simone, na praia de x. Nossas famílias descobriram um parentessco longínquo e nossas relações logo se precipitaram. Três dias depois de nosso primeiro encontro. Simone e eu estávamos a sós em sua casa de campo. Ela vestia um avental preto, e usava uma gola engomada. Comecei a me dar conta de que ela partilhava minha angústia, bem mais forte naquele dia em que ela parecia estar nua sob o avental. Suas meias de seda preta subiam acima do joelho. Eu ainda não tinha conseguido vê-la até o cu ( esse nome, que eu sempre empregava com Simone, era para mim o mais belo entre os nomes do sexo). Imaginava apenas que, levantando o avental, contemplaria a sua buda pelada. Havia no corredor um prato de leite para o gato.
- Os pratos foram feitos para a gente sentar – disse Simone.
Quer apostar que eu me sento no prato?
- Duvido que você se atreva – respondi ofegante.
Fazia calor. Simone colocou o prato num banquinho, instalou-se à minha frente e, sem desviar dos meus olhos, sentou-se e mergulhou a bunda no leite. Por um momento fiquei imóvel, tremendo, o sangue subindo à cabeça, enquanto ela olhava meu pau se erguer na calça. Deitei-me a seus pés. Ela não se mexia; pela primeira vez, vi sua ‘carne rosa e negra’ banhada em leite branco. Permanecemos imóveis por muito tempo, ambos ruborizados.
De repende, ela se levantou: o leite escorregou por suas coxas até as meias. Enxugou-se com um lenço, por cima de minha cabeça, com um pé no banquinho. Eu esfregava o pau, me remexando no assoalho.
Gozamos no mesmo instante, sem nos tocarmos. Porém quando sua mãe retornou, sentando-me numa poltrona baixa, aproveitei um momento em que a menina se aninhou nos braços maternos: sem ser visto, levantei o avental e enfiei a mão por entre suas coxas quentes.
Voltei para casa correndo , louco para bater uma punheta de novo. No dia seguinte, amanheci de olheiras. Simone me olhou de frente, escondeu a cabeça contra o meu ombro e disse: ‘ Não quero mais que você bata puheta sem mim.’
Assim começou entre nós uma relação amorosa tão íntima e tão urgente que raramente passamos uma semana sem nos ver. De certa forma, nunca falamos disso. Percebo que ela tem , na minha presença sentimentos semelhantes aos meus, difíceis de descrever. Lembro-me de um dia em que passeávamos de carro em alta velocidade. Atropelei um ciclista jovem e bela, cujo pescoço quase foi arrancado pelas rodas. Contemplamos a morta por um bom tempo. O horror e o desespero que exalavam aquelas carnes, em parte repugnantes , em parte delicadas, recordam os sentimentos…”
sobre minhas leituras de Bataille
(texto de junho de 2004)

Nos últimos 15 anos tenho lido, sistematicamente, todos os textos de George Bataille (1897/1962), em seguida que são publicados. E, cada um destes textos, estabelece rupturas, verdadeiras brechas, pela forma surpreendente, desconsertante com que algumas das mais importantes questões de nosso tempo são abordadas. São textos viscerais. Não temos a pretensão de nos colocarmos entre os que se consideram grandes conhecedores do pensamento de Bataille. Ao contrário, a cada leitura, ou ainda, quando da publicação de um texto inédito ou de uma reedição, somos empurrados para uma nova (re) leitura; e, por isso mesmo, este é um autor do qual nunca conseguimos nos distanciar. A recente reedição de “História do Olho”, pela Cosac& Naify desencadeou, mais uma vez, este processo, sendo que acompanha – desta vez – os ensaios de Michel Leiris, Roland Barthes e Julio Cortázar. Com uma certa doze de paciência e sorte é possível garimpar alguns destes livros nos sebos. ” O ânus solar” é uma edição portuguesa , da Hiena Editora, de 1985, com uma tiragem de apenas 1000 exemplares. Desconheço a existência de uma edição brasileira. “A Experiência interior”, da editora Ática está esgotado, assim como quase todos os outros. “A Parte Madita”, precedida de ” A Noção de Despesa” é uma leitura obrigatória, ainda hoje. (wu)
Curso de Bioconstrução na Arca Verde
23 a 26 de junho de 2011*
Construindo com nossas próprias mãos espaços ecológicos para viver e conviver .
Instituto Arca Verde – São Francisco de Paula – RS
Oficinas práticas de montagem de Telhado Vivo de baixo custo, instalação de sistema de aquecimento de água lenha com serpentina, construção com barro e outras técnicas permaculturais. Compartilhamento de conhecimentos, experiências e talentos mais diversos no aconchegante inverno da serra gaúcha.
Telhado Vivo: Montagem de cobertura verde (com grama e outras plantas) sobre estrutura de madeira, utilizando materiais reciclados. Contribui para o isolamento térmico da construção e harmonização com a paisagem entre outras vantagens.
Serpentina no fogão à lenha: Instalada dentro do fogão com objetivo de aquecer água aproveitando o calor da lenha usada no processo de cozimento. Teoria da combustão de eficiência, possibilitando projetar sistemas semelhantes.
Investimento:
R$245 em camping, R$290 em alojamento. Inclui hospedagem, alimentação vegetariana, natural e saudável e certificado.
* chegada, acolhimento e visita guiada na manhã do dia 23/6, iniciando a programação de oficinas após almoço às 15h.
Informações:
(54) 9901 7745/9956 1056
institutoarcaverde@gmail.com
www.arcaverde.org
ou cravos vermelhos

Da série de antigos e novos haikais.