“Muitas vezes ficamos, noite adentro, a conversar com os amigos. Conversa fiada, que nos faz muito bem. E falamos de tudo. De política, de futebol, deste mundo perverso em que vivemos, dos nossos irmãos das favelas, dos meninos de rua a correrem pela madrugada, sem uma esperança sequer. Não raro falamos do futuro, do inesperado, que tudo domina, e muitas vezes contra nós. Até da figura sinistra de Bush nos ocupamos. E aí, nacionalistas, todos se levantam a falar da Amazônia tão ameaçada e da política externa de Lula, que só podemos aplaudir. No último encontro, observei que começava a me repetir (pessimista), a comentar sobre a fragilidade das coisas e das nossas pobres vidas. E, sem cair no niilismo, passando por Schopenhauer e pela leitura de ‘L’être et lê Néant’ (‘O Ser e o Nada’), que nunca esqueci, aceitava a pouca importância da vida e de tudo o mais. Depois, ao voltar para casa, fiquei a analisar esse meu ponto de vista que tanto repetia — para alguns, sem maior significação. E agradou-me perceber que havia uma certa razão para essa insistência, talvez desnecessária, apesar de representar uma ideia muito minha, a defender a conveniência de melhorar o ser humano, de fazê-lo mais modesto, o “que a luta política, inclusive, reclama. Lembro os velhos tempos… Como o partido era para muitos coisa sagrada, uma religião. Hoje continuo a admirá-los, convicto, como eles, de que a proposta de Marx e Engels é legítima e apaixonante — mudar a sociedade, fazê-la boa e justa para todos. Só o ser humano é que continuaria desprotegido diante do d estino implacável. E, procurando um exemplo que comprovasse o meu pensamento, era Kruschev que me aparecia. Ele, que, ambicioso, voltado para o poder, elaborou o lamentável relatório contra Stálin. Satisfazia-me ver que até na luta política a modéstia seria eficaz, evitando erros como esse. E, mais ainda, na sociedade sem classes adotada, aceitando-se as limitações que o novo regime — igual para todos — vai estabelecer. Sentia que essa preocupação com a modéstia e a importância que poderia assumir em qualquer movimento de caráter político nunca tinham sido devidamente valorizadas. O que parece justificar o empenho com que a elas costumo voltar, certo de que, mais modesto, o homem será um dia mais feliz”.
(Texto de Oscar Niemeyer, publicado em 06.06.2004, no jornal Folha de São Paulo/Oscar Niemeyer é carioca nascido a 5 de dezembro de 1907.)
censura
Está fazendo algum tempo que não lembro a todos vocês que continuo sob censura. Fui absolvido, em todas as instâncias, no processo criminal que era movido por um funcionário com 35 anos de PRBS (Partido Rede Brasil Sul de Comunicação), mas continuo impedido de dizer o que penso em função de um outro processo na área cível movido pelo mesmo cara. Estou submetido a uma multa diária de 150 reais caso volte a fazer as críticas que fazia (que não foram consideradas criminosas) ou caso eu recoloque à disposição dos leitores de Pontodevista o material antigo. Fui obrigado a tirar a revista da rede pela impossibilidade de realizar a “limpeza” determinada. Como não existe meia censura abandonei a “leitura” diária que fazia do jorneleco. Nem mesmo o uso de apelidos, todos amplamente conhecidos da categoria (como Causowsagner) foi considerado crime. Estou impedido de comentar da edição de hoje de Zerolândia, por exemplo, a importante matéria da página 72, assim como não vou dizer nada sobre a lamentável morte do cinegrafista Gelson Domingos (em conflito entre forças policiais e meia dúzia de “trabalhadores” dos pontos de venda de drogas), mas cuja matéria tem por título “A guerra do Brasil”.
“Democracia, só a VERDADEIRA DEMOCRACIA, que não se conseguirá sem a liquidação do monopólio da terra, sem a derrota do imperialismo ianque e sem a substiuição do atual governo de traição nacional por um governo democrático, progressista e popular”. (Carlos Marighella, Revista Problemas, janeiro de 1948, N.6). Encontrei esta preciosidade em um “sebo” de POA e mais uns quatro ou cinco exemplares. Os velhos comunistas colecionavam esta revista. Liam e discutiam os imensos artigos publicados. Sem entender nada acerca do materialismo dialético, mas me achando muito adulto, perdi algumas tardes lendo textos de Stalin. Quanto este exemplar foi publicado ainda não tinha nascido.
direto do baú
“Apesar de perseguidos pelos agentes do Cenimar, os guerrilheiros que estavam na casa do Rio Comprido conseguiram escapar. Entre eles Toledo, que completara 56 anos no dia 5 de setembro. Contudo a repressão veio com tudo para cima da ALN e do MR-8. No dia 9 de setembro, um dos guerrilheiros do MR-8, Cláudio, o mesmo que dirigira o Cadiliac, foi preso num apartamento do Leme, no Rio, após trocar tiros com a equipe do Cenimar. O militante encarregado de limpar a casa da Barão de Petrópolis após o sequestro descuidara-se e deixara um paletó de Cláudio na casa. A partir da etiqueta do alfaiate, o Cenimar chegou até o apartamento de Cláudio. Toledo, Virgílio e dois outros militantes da ALN conseguiram com muita dificuldade furar o cerco e chegar até São Paulo, onde o clima também estava carregado. As primeiras quedas da ALN começaram antes mesmo do seqüestro de Elbrick.”
(trecho do livro, pág 210. Cláudio do texto é Cláudio Torres, estudante da Faculdade de Economia da UFRGS e dirigente estudantil do DCE –Diretório Central dos Estudantes. Notem que a UFRGS nunca comemorou o fato de ter um ex-estudante diretamente ligado à história do sequestro do embaixador americano.)
“Excluído do Exército brasileiro por ter participado do movimento de 35, a condenação de oito anos de prisão, o encontrou no exílio, em Buenos Aires, de malas prontas para a Espanha, como voluntário das famosas Brigadas Internacionais. Sua participação na grande luta desamparada do povo espanhol contra o nazi-fascismo foi destada e intensa. Quando da vitória de Hitler e Mussoluni, ele comandava uma brigada, a ‘Lincoln’, que se compunha de 5 mil homens de 30 nacionalidades. Internado na França com milhares de ex-combatentes republicanos espanhóis, José Gay da Cunha, mal curado dos ferimentos recebidos em ação e exausto da travessia dos Pirineus, feita a pé, sobre a neve, foi nomeado delegado de 20 mil companheiros recolhidos ao campo de Gurs, junto às autoridades francesas. Este livro, escrito em estilo tocante pela objetividade, fere diretamente as questões cruciais do drama espanhol…” (trecho do texto de apresentação do livro editado pela Globo,1946)
* José Gay da Cunha nasceu em Porto Alege em 1910.
* Este é um exemplar raro, mas que com alguma sorte, lá pelas tantas, é possível encontrar em um sebo, livraria de usados.
Dezesseis brasileiros (dois civis e 14 militares) lutaram na Guerra Civil Espanhola (1936/1939). São eles os militares: Alberto Bomílcar Besouchet, Apolonio de Carvalho, Carlos da Costa Leite, David Capistrano da Costa, Delcy Silveira, Dinarco Reis, Eneas Jorge de Andrade, Hermenegildo de Assis Brasil, Homero de Castro Jobim, Joaquim Silveira dos Santos, José Gay da Cunha, José Correa de Sá, Nelson de Souza lves, Nemo Canabarro Lucas: e os civis: Roberto Morena e Eny Silveira
Morte de legalista no fronte de Córdoba em 5 de setembro de 1936 em foto de Robert Capa.
Do índice da edição de n.28 da revista eletrônica Pontodevista, de outubro de 2004, constam cerca de 30 itens. Destacamos ”A paixão pelos livros” e “Mineirinho, o bandido da década de 60″. Deixamos de lado a edição da revista tão logo teve início o processo de censura, resultante das ações movidas por um funcionário com 35 anos de PRBS/jornal Zero Hora, muito conhecida por Zerolãndia. Em todas as instâncias da área criminal fomos absolvidos. Nenhuma das críticas, bem como o uso de apelidos não criados por nós, pode ser considerado uma ação criminal. Na esfera cível continuamos submetidos a uma multa diária de 150 reais diários caso a revista mantenha na rede alguns de seus conteúdos. Estamos (re)editando Pontodevista, após uma “limpeza” destes conteúdos, mantendo o desenho original para que novos leitores tenham uma noção do trabalho que realizávamos, todo ele voltado para o ensino de JORNALISMO. Como jornalista e professor de jornalismo da UFRGS continuo impedido de expressar minhas críticas. EDIÇÃO N.28 É AQUI. E graças aos bons deuses não recebi – estaria sob suspeita em caso contrário – nenhuma manifestação de solidariedade da rede de conivências corporativas.