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BONS, COMPORTADOS E PUROS, ANJINHOS

        Diante do blábláblá… tenho 35 anos de RBS (PartidoRBS)… blábláblá tenho 18 anos… blábláblá só tenho bons e comportados colegas cai como uma luva A LIÇÃO RBS, de Eliane Tavares. Quando por lá passei (Rádio Gaúcha e Zero Hora) nunca morri de amores. Ao ser mandado embora não ficou mágoas. Era o que eu queria. Pertenci a uma redação, cuja camada intermediária era de esquerda, velhos militantes como Aveline, Pila, Antonio Oliveira, Matzenbacher, Figueiredo, Bastos e tantos outros. Mais os malucos beleza. Começo no jornalismo pelas mãos de Marcos Faerman, o Marcão. Quando saí da cadeia fui trabalhar na velha rádio Continental. Aprendi muito com todos eles. Sou um privilegiado. Por concurso público me tornei um professor de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Um pouco como brigadeira e um pouco como verdade digo que foi um descuido do sistema. Ideia que não é minha. Foi expressa por alunos. Não tenho o que reclamar da vida. Não tenho mais nenhuma relação com qualquer uma das pontas da atual rede de conivências corporativas. Não tenho mais nada a dizer em cursinhos técnicos de comunicologia. Estou cansado até deste espaço. Meus objetivos já foram alcançados.
       Sonho, e algum dia espero realizar novas atividades como jornalista e professor. Estarei mobilizado e com tesão, pela milésima vez, quando estiver a serviço dos marginais, dos que estão à margem em um projeto de jornalismo popular. Na atual etapa falta paixão. E sem ela não existe a mínima possibilidade do fazer jornalismo. Não existe intensidade.
       Correu tudo bem na audiência.  Não tenho ilusões. Fui criado escutando de meus pais que a Justiça é uma justiça de classe. Dependendo dos interesses (da conjuntura) em jogo posso me sair bem como posso me fuder. Sempre foi assim. Em situação extrema, em plena ditadura, passei uma temporada na cadeia.
       “E depois de tudo, céu e terra aí estão, como se nada tivesse acontecido. A esta altura, a vida e as ações de um homem têm o peso de uma folha seca no meio da ventania… Ora, que vá tudo para inferno!”
        Estou Zen.

A LIÇÃO RBS
(um belo depoimento para ser lido com atenção)

       Eu tinha pouco mais de 20 anos quando comecei a trabalhar na televisão. Era uma empresa da RBS em Caxias do Sul. Encantada com o mundo do jornalismo, o qual eu perseguia desde menina, “vestir a camisa” da empresa me parecia a coisa mais certa a fazer. O trabalho passou a ser minha própria vida. Não havia separação. E era comum fazer milhares de horas extras sem ganhar nada, trabalhar nos finais de semana, feriados. Eu amava o Otaviano, meu chefe direto, que era um competente jornalista e me ensinou quase tudo o que eu sei, tinha profundo carinho pelo diretor da TV, o seu Ênio e atuava com companheiros do mais alto gabarito, seja no nível da reportagem (Britto Jr) ou da imagem (Vaderlei, Dino, Luis). Não via qualquer contradição entre capital X trabalho. Era uma alegre e bem comportada funcionária da RBS. Até que um dia, e própria empresa me deu uma lição que jamais pude esquecer.
       Dentre os trabalhadores da rede, havia um por quem eu tinha muita ternura. Não vou aqui dizer o seu nome, mas ele atuava na área da engenharia. Era um pouco assim como eu. A empresa era sua primeira pele. Tudo fazia por ela e os colegas diziam que ele tinha trabalhado com Maurício (o criador da RBS) desde os tempos de Passo Fundo. Amava a RBS mais que a si mesmo, mas era totalmente puxa-saco. Como ele vinha muito à Caxias a gente sempre conversava muito e eu, espevitada, me irritava um pouco com aquilo. A gente brigava.
       Naqueles dias de 1983 eu já incursionava pelas reuniões de sindicato da cidade, por conta das reportagens e admirava uma mulher, presidente do sindicato dos gráficos, que iniciava a construção do Partido dos Trabalhadores por lá. Foi quando comecei a me enredar nestas coisas da política e a perceber que as empresas capitalistas existem para sugar o sangue dos trabalhadores. Comecei a observar melhor minha relação com a RBS. Entrei para o sindicato dos radialistas e passei a exercer a função de delegada sindical. Tudo mudou pra mim e nas conversas que eu tinha com esse amigo, ele me dizia: “Olha, tu deixa isso pra lá, tu vai te queimar. A empresa te dá um pé na bunda. Larga de política e vai trabalhar”. Óbvio que não larguei, ao contrário, e quem me incentivou a mergulhar nisso foi a própria RBS.
       Ocorre que esse meu amigo estava para se aposentar. Ele fazia planos, mas sofria por se saber fora daquele lugar que era a sua vida. E a gente falava muito sobre isso. Então, um dia, sem mais, nem porquê, nos chegou a notícia: o companheiro havia sido demitido. Tinha mais de 25 anos na empresa, a um passo da aposentadoria. Ficou sem eira nem beira, no chão. A RBS era seu mundo. Estava acabado. Cheguei a vê-lo meses depois, um homem arruinado. Então, na aurora do despertar da minha consciência de classe eu percebi: quando a gente vende a força de trabalho para uma empresa capitalista, duas coisas podem acontecer.
1 – Tu luta, e é demitido.
2 – Tu não luta, se esforça, defende e ama a empresa, e é demitido também.
       A empresa me ensinou. Nunca mais tive dúvidas. E desde então, onde quer que vá, estou sempre na luta, no sindicato, nos movimentos. Porque o sistema que nos oprime não tem compaixão. O grande jornalista José Martí já educava. Melhor morrer de pé que viver ajoelhado.
       No último mês de janeiro deste 2010 vários companheiros jornalistas desta mesma empresa foram demitidos. Muitos deles com mais de 15 anos de casa. Gente que deu seu sangue, sua vida pela RBS. Foram mandados embora assim, sem mais, nem menos. Talvez a empresa os considere velhos, sem criatividade e afinal, há um exército de meninos e meninas à espreita, esperando uma vaga na prima-irmã da platinada. Estes companheiros e companheiras fizeram tudo certinho, trabalharam com afinco e dedicação, raros se meteram em lutas laborais. E esta é paga. Eu aqui me solidarizo com estes companheiros, por quem tenho profundo respeito e admiração. Posso imaginar a dor e a perplexidade, assim como senti naquele longínquo amigo.
      Então escrevo essas linhas, para lembrar aos jovens esta triste lição: o trabalho duro e comprometido junto às empresas capitalistas não nos garante qualquer compaixão. Neste sistema perverso só a luta coletiva nos leva a conquistas de vida digna. Só a luta solidária nos aproxima e nos irmana na busca de um mundo novo. Estarmos juntos e em comunhão é nossa única opção contra a rapina do capital!

de Elaine Tavares em PALAVRAS INSURGENTES

Ideias e práticas como esta constroem a verdadeira democracia. VISITE AQUI.

@@@@@@@@@@  no corre do dia vou revisar. Estou atrasado para uma Deriva.

@@@@@@@@@@ Quero agradecer publicamente às pessoas que serviram de testemunhas. Aos jornalistas André Oliveira, do Coletivo Catarse; Adriano, do Celeuma; e ao Miguel Stedile, historiador e integrante do setor de comunicação da Via Campesina.  

1 Comentário »

  1. Vestir a camiseta « Cantofabule — 5/03/2010 @ 16:21

    [...] Vestir a camiseta 2010 fevereiro 27 by Juliano Bruni Ressuscito Cantofabule, entre outros motivos, por causa deste texto. Reproduzido e bem comentado pelo Ponto de Vista, serviu para sacudir na minha memória um episódio que talvez tenha contribuído decisivamente para formar o ser humano que sou hoje. É minimanente representativo do assunto pelas condições em que ocorreu, uma experiência muito precoce que me ensinou o que eu precisava saber sobre empresas — e mercado de trabalho em geral — deste mundo selvagem e para muito poucos que é o capitalismo. [...]


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