Edward W. Said era considerado um dos mais importantes intelectuais palestino. Foi professor de iteratura na Universidade de Colúmbia, em Nova York. Morreu em 2003.
MEU ENCONTRO COM JEAN-PAUL SARTRE “Outrora o mais festejado intelectual do mundo, Jean-Paul Sartre tinha, até bem pouco tempo atrás, quase desaparecido de vista. Ele já estava sendo atacado por sua ‘cegueira’, sobre os gulags soviéticos pouco depois de sua morte em 1980, e até mesmo seu existencialismo humanista foi ridicularizado por seu otimismo, voluntarismo e puro alcance energético. Toda a carreira de Sartre foi ofensiva, tanto para os chamados Nouveaux Philosophes, cujas medíocres realizações tinham apenas um fervoroso aanticomunismo para atrair alguma atenção, como para os pós-estruturalistas e pós-modernistas, que, com poucas exceções, tinham caído num taciturno narcisismo tecnológico, profundamente antagônico ao populismo da obra de Sartre e sua heróica atividade política. A imensa abrangência da obra de Sartre como romancista, ensaísta, dramaturgo, biógrafo, filósofo, intelecutal político, ativista enganjado, parecia mais repelir as pessoas do que atraí-las. Do mais citado maîtres penseurs franceses, ele se tornou, transcorridos cerca de vinte anos, no menos lido e menos analisado dentre eles. Suas posições corajosas sobre a Argélia…”
UM ACADÊMICO COMPROMETIDO: PIERRE BOURDIEU (1930/2002)
“… fiquei impressionado com seu jeito despretencioso, sua cordialidade e seu respeito por um novo amigo e aliado. Sempre sério, nunca foi solene. De maneira um tanto encantadora,raramente perdia uma chance de dizer algo engraçado ou desmistificador. Também nunca posava ou fazia ares de superioridade. Franqueza e sinceridade eram a marca registrada de sua presença intelectual, mesmo que fosse contundentemente irônico em seus ataques contra a impostura e a fraude. Tinha um conhecimento enciclopédico sobre os movimentos sociais, cujas correntes e transformações narrou. O que mais me impressionava, contudo, é como a complexidade e o detalhe nunca o derrotava ou o incapacitava. Pelo contrário, ao objetivar tanto um quanto o outro com inigualável maestria, era também capaz de transitar por uma visão teórica incomparavelmente elegante e estimulante. Isso, creio eu, é o que o tornou um grande professor e inspirador. Isso, e a total ausência de afetação.” (trecho de um ensaio publicado em fevereiro de 2002)
Este é dos melhores livros em termos de estudos comparativos. Edward W. Said era considerado uma das maiores autoridades no tema. Para o próprio entendimento do peso da cultura islâmica é uma leitura obrigatória. Nos livros do pensador palestino temos, além do rigor “acadêmico” um texto elegante.
indigência x inteligência
Muito+ Qual o impacto que teve o AI-5 nos meios de comunicação? Mino Carta – O AI-5 é o golpe dentro do golpe. O AI-5 reforça e exaspera o golpe de 1964. Este é o golpe a 13 de dezembro de 1968. A grande imprensa é uma das vergonhas brasileiras. Ela defendeu o golpe de 64, e o golpe dentro do golpe, que foi o de 68. A grande imprensa, tirando o Estadão, nunca foi censurada. Nem a Folha, nem O Globo, o JB. O Estadão foi censurado porque era, simplesmente, uma dissidência entre os golpistas. Não que fosse adversário nem inimigo do golpe. Para o Estado estava muito bem o golpe. Sugiro a leitura atenta do editorial do Estado de São Paulo, em 17/11/68. Não existe nada pior em matéria de ferocidade, de maldade, de violência, de covardia… Sobretudo de covardia… O traço maior desta elite brasileira é a prepotência e a covardia, sem contar a ignorância e a presunção. E uma elite, inacreditavelmente, ridícula. Esse é um exemplo de como se faz um editorial. Não existe nada igual. Ninguém nunca conhecerá ao longo da vida, por mais longa que seja, algo similar. A grande imprensa não foi censurada. Achou ótimo o AI-5. Fechou com AI-5. Estava disposta a fazer qualquer negócio. O erro básico é chamá-la de “grande”, é uma imprensa pequena. É a pior imprensa do mundo. Não se pode confrontar um jornal brasileiro com um grande jornal do mundo. Não há condições. Porque é a indigência versus inteligência.
(Texto de uma entrevista com Mino Carta para MUITO+ , n.26)
As fotos da coluna da esquerda: 1- 1926/quatro homens andando sobre a ponte do Brooklyn a Nova Nova York; 2 – 1929/operários descansam depois do almoço em uma rua de Londres; 3 – 1929/operários trabalham em uma máquina de produção de macarrão na Itália; 4- 1927/mulheres trabalham na produção de alimentos no período da primeira guerra mundial.
“Pierre Verger, repórter fotográfico ” é uma edição da Betrand Brasil, com o apoio da Fundação Pierre Verger. A introdução Angela Lühning trata de “Verger nos tempos da revista O Cruzeito”.
Ao fundo, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde antigamente se elegiam os “reis do congo”. (Recife, 1947)
manifesto unamober
foto de Theodore J. Kaczynski.
“É coisa rara um filósofo cometer actos de violência para fazer ouvir a sua doutrina. É ainda mais raro um criminoso justificar os seus actos apoiado numa teoria filosófica clara e argumentada. Graças a uma chantagem, o terrorista/filósofo conhecido do público norte-americano pelo nome de Unabomber conseguiu forçar há meses um dos principais jornais diários dos Estados Unidos, o Washington Post, a publicar um estranho manifesto, intitulado O Futuro da Sociedade Industrial, que se viu abundantemente comentado logo após ter vindo a lume. Publicado uma primeira vez a 19 de Setembro de 1995, republicado dias depois por um outro jornal e a seguir difundido nas redes electrónicas, este texto foi lido por milhões de pessoas. O indivíduo conhecido com o pseudónimo de Unabomber ou Unabomb, que lhe foi atribuído pelo FBI (un, para signifiicar universidade; a. para airlines), é o criminoso mais procurado dos Estados Unidos. Foi oferecida uma recompensa de um milhão de dólares (metade paga pelo FBI e a outra metade por grupos industriais que se sentem ameaçados pelos seus actos terroristas) a quem possa fornecer indicações que levem à sua detenção; para obter informações sobre a sua pessoa, foram utilizadas as técnicas mais sofisticadas; múltiplos dados a ele relativos foram integrados em computadores; foi interrogado um número impressionante de suspeitos; foi criada uma linha telefónica para receber em permanência toda e qualquer informação (1-800-701-BOMB); um grande leque de pistas foi alvo de análise e tudo isso em vão. A polícia procura-o desde há quase 18 anos e toda essa investigação não deu resultados nenhuns. Se por um lado há hoje muitos elementos relativos às suas ideias e motivações, a maneira como constrói as bombas ou à sua visão da sociedade futura, o indivíduo, quanto a ele, parece manter-se invisível. É como um fantasma que de vez em quando ressurge, percorrendo a sociedade norte-americana para reprovar a maneira como esta vive. Ninguém ou quase ninguém o viu. Fica quieto durante meses, às vezes durante anos; e a certa altura faz-se de novo lembrar junto do público enviando uma bomba a alguém ou uma carta-aberta a um jornal — ou ainda, como mais recentemente aconteceu, o manifesto que apresentamos. Este método tornou-o uma figura popular, como o são por vezes os criminosos excepcionais ou os fora-da-lei na América do Norte. Na Universidade de Northwestern, onde ocorreram os seus primeiros ataques, faz hoje parte do folclore estudantil, vendendo-se ali camisolas com o seu retrato-robô, acompanhado da seguinte legenda: «I’ve got your package» («Cá recebi o teu pacote»). Na Califórnia, o texto do seu manifesto foi há pouco musicado pelo poeta «punk-rock» Exene Cervenka, e a avaliar pelo que dizem os jornais a a cassete vende-se bem. Retomemos o fio da meada. A primeira manifestação ‘pública’ de Unabomber remonta ao dia 25 de Maio de 1978. Nessa data, na Universidade do Illinois, em Chicago, um vigilante encontra um pacote que ficara esquecido no departamento de engenharia. O pacote é endereçado a um tal E.J. Smith, engenheiro em electricidade e professor num instituto de tecnologia. O endereço do remetente é também legível: Buckley Crisp, do Instituto de Tecnologia da Universidade de Northwestern. O vigilante decide devolver o pacote ao remetente. Quando este último o recebe, desconfia, porque nunca o vira, entregando-o à esquadra da polícia próxima da universidade. E quando um polícia tenta abri-lo, o pacote explode, ferindo-o. A polícia, vendo depois que o embrulho continha uma bomba de fabrico grosseiro, pensa tratar-se duma brincadeira de mau gosto vinda dos estudantes. No ano seguinte, são enviados dois outros pacotes. A 9 de Maio de 1979 um estudante encontra uma bomba abandonada no Instituto de Tecnologia de Northwestern; ao agarrá-la, fica ligeiramente ferido. A 15 de novembro desse ano, o voo n° 444 da American Airlines, entre Chicago e Washington, é obrigado a fazer uma aterragem forçada, devido a um pacote postal que se incendiou no compartimento das bagagens. Doze pessoas irão sentir-se mal, por terem inalado fumos. A bomba, enviada dos correios de Chicago, não explodira como previsto, e por isso o embrulho apenas se incendiou. Os agentes do FBI podem assim verificar que o engenho, de fabrico artesanal, tinha características semelhantes ao de 1978.”
“Sete meses mais tarde, Percy Wood, director-geral da United Airlines, depara no seu correio pessoal com um pacotinho remetido de Chicago. Dentro dele, uma carta escrita à máquina acompanha o envio de um romance. Wood, que acaba de festejar os seus 60 anos, recebe-o como um presente, lendo na carta: ‘Envio-lhe este livro, esperando que o seu impacto social o sensibilize.’ Pousa o livro na secretária, abre a capa cartonada e a explosão é de tal ordem que lhe arranca a mão esquerda. A bomba fora colocada num rectângulo cavado nas páginas do volume. Quando os agentes do FBI recolhem os pedaços do engenho, vêem numa cápsula de chumbo as iniciais ‘FC’, em jeito de assinatura. Já tinham dado por elas anteriormente, nos outros casos. Sem entrarmos nos pormenores das 16 bombas até agora enviadas pelo misterioso FC, podemos no entanto fazer as seguintes observações. Os pacotes com que FC gratifica as pessoas permitem seguir o rasto dos seus locais de residência ou dos seus centros de acção. Desde há 18 anos, quatro principais regiões foram teatro dos seus crimes: Nova Jersey, à volta da Universidade de Yale; a região de Chicago, à volta da Universidade de Northwestern; Sait Lake City, no Utah, cidade onde estão estabelecidos muitos mormons e onde também há um centro universitário. E finalmente a região norte da Califórnia, à volta de Sacramento e de San Francisco, sendo o alvo privilegiado a Universidade de Berkeley. Além dos dirigentes de companhias de aviação, Unabomber ataca engenheiros ou investigadores especializados em tecnologias de ponta, tais como a informática ou a engenharia biológica. Os seus envios podem ou não ir acompanhados de cartas explicativas. Recentemente ameaçou pelo correio dois prémios Nobel de Química, mas o conteúdo dessas cartas não foi divulgado. Depois de em Junho de 1993 ter ferido David Gerlernter, historiador de Ciências que também professa Informática na Universidade de Yale, Unabomber envia-lhe uma carta em que não poupa os sarcasmos.”
(Esta introdução de Jan-Marie, autor francês, foi traduzida de “Unabomber-Manifeste”, publicada em 1996, mas redigida no ano anterior. Mantivemos a grafia original da edição portuguesa.)
As lições de um grande jornalista que vê na objetividade a prova da hipocrisia ou da estupidez
A crença no chamado jornalismo objetivo ou é prova de hipocrisia ou de estupidez. Ou junta estas qualidades negativas em sociedade atroz e patética que, a bem da sacrossanta verdade, está longe de ser incomum nas nossas plagas. Em quaisquer campos, não apenas no midiático. Com largas adições de ignorância, e outras tantas de vulgaridade. Nesta edição, a palavra cabe a Greg Palast, excepcional profissional de imprensa americano, de quem falamos na reportagem especial, a partir da página 8. Excepcional de todos os pontos de vista, inclusive porque jornalistas como Palast, nos Estados Unidos dos dias de hoje, são flores mais únicas que raras. Um livro de Palast, que inclui uma reportagem inédita sobre o Brasil de Fernando Henrique Cardoso, está para ser publicado pela Editora W11. A Melhor Democracia Que o Dinheiro Pode Comprar. E dá gosto verificar que as idéias do notável colega americano em relação à prática da profissão coincidem com as nossas. A começar pelo reconhecimento da inescapável subjetividade do jornalismo, sempre que exercido de boa-fé, sem peias no uso do espírito crítico e na fiscalização do poder, onde quer que se manifeste. Donde, em proveito de posições isentas e, portanto, do público leitor. Da opinião pública. Da nação. Ninguém é dono da verdade e, em verdade, uma só é indiscutível, a factual. Mas qualquer jornalista autêntico parte dos seus próprios pontos de vista, como observa Palast, e, ao expô-los, dignifica seu trabalho. E contribui proficuamente para o pluralismo de visões que a democracia recomenda. E demonstra aquela honestidade que, segundo Carta Capital, há de ser exigida do profissional. Em lugar da objetividade. Houve quem se espantasse quando em 2002, Carta Capital se definiu abertamente a favor da candidatura Lula. Em compensação ninguém se queixou porque o resto da mídia apoiava a candidatura Serra enquanto fingia eqüidistância. Tratamos, então, de ser honestos. O nosso apoio não foi outorga definitiva, está claro. A vitória do candidato da oposição representou evento inédito, e empolgante. E, de certa forma, ao mostrar a súbita autonomia de vôo do eleitorado, transcende a qualidade do governo atual. Cuja atuação, em um ano e dois meses, mereceu os honestos reparos de CartaCapital, em diversas ocasiões. E segue a merecer. Sem contar a profunda decepção causada pelo episódio Waldomiro. Coisas de um país que talvez Palast não chegue a compreender por completo. Não é simples, de fato. Em um ponto, é certo, a gente se permite discordar de Palast. Diz respeito à sua percepção, generosa demais, da mídia brasileira. Sempre e sempre ela esteve com os mandachuvas, mesmo porque integra o grupo. O clã. A confraria. Poucos países do mundo reservam o bem-bom para tão poucos. E em nenhum outro a mídia depende de tanto do poder. (Mino Carta)
“E dá gosto verificar que as idéias do notável colega americano em relação à prática da profissão coincidem com as nossas. A começar pelo reconhecimento da inescapável subjetividade do jornalismo, sempre que exercido de boa-fé, sem peias no uso do espírito crítico e na fiscalização do poder, onde quer que se manifeste”. (Mino Carta)
“Dos 1373 homicídios de agricultores, advogados, sindicalistas e religiosos envolvidos na questão fundiária registrados entre 1985 e 2003, em todo o Brasil, apenas 122 casos foram levados a julgamento. Nove mandantes dos crimes foram condenados. Nenhum deles está preso — ou estão foragidos ou entraram com uma apelação na Justiça e estão aguardando a decisão em liberdade. Mais de 90% desses casos nunca chegaram à Justiça. Outros se arrastam por dez anos — ou mais —, sem que se chegue a uma decisão judicial. É para alertar o país a respeito dessa impunidade e, sobretudo, sobre o extermínio de trabalhadores rurais Brasil afora que Viúvas da Terra foi escrito. Para quem pensa que reforma agrária é um assunto de interesse apenas de agricultores e de alguns políticos em Brasília, este livro pode ser um pesado sopro de realidade”. (da introdução do livro)
Não deixe de ler “Viúvas da Terra”, do jornalista Klester Cavalcanti, da editora Planeta. É impressionante o relato de algumas mulheres entrevistadas e que presenciaram a execução de marido se/ou filhos. MUITOS OUTROS TRABALHADORES FORAM EXECUTADOS APÓS A PUBLICAÇÃO DESTE LIVRO.
”Carta Capital – Como o senhor define ‘jornalismo investigativo’?
Greg Palast – Jornalistas investigativos são aqueles que não vão a entrevistas coletivas, não escrevem a partir de press releases, não reproduzem declarações oficiais, mas buscam a informação original. O trabalho do jornalista investigativo é fornecer a informação que o poder constituído não gostaria que fosse exibida”.
“Carta Capital – O senhor usa gravadores escondidos, disfarces e outros artifícios do gênero para obter importantes informações. Na sua opinião, são recursos válidos em qualquer situação do jornalismo?
Greg Palast – Sim. Eu não precisaria usar disfarces, nomes falsos, gravadores escondidos se as autoridades falassem a verdade. Mas elas sempre mentem. Para falar a verdade, elas não podem saber com que elas estão falando. Agora que estou começando a ficar conhecido, está ficando mais difícil para mim.
Carta Capital – O senhor pinta um retrato trágico da mídia americana, chama o Washington Post de ‘covarde’, diz que o leitor encontará no livro ‘o que não deu no New York Times’ e chama os jornalistas econômicos de ‘poodles’…
Greg Palast – São poodles. Eles vão a essas entrevistas coletivas, viram-se com as patinhas para cima e fingem-se de mortos. Uma coisa boa é que a Internet oferece aos americanos a alternativa de ler a imprensa estrangeira. Também nos Estados Unidos há uma grande rede de rádios comunitárias, sem fins lucrativos, que trazem informações. Meios alternativos estão sendo usados para expor a verdade”. (entrevista concedida a Carta Capital, de 10.03.2004)