Se decidir pela viagem
“No começo, bem antes de todo gesto, de toda iniciativa e de toda vontade deliberada de viajar, o corpo trabalha, à maneira dos metais, sob a ação do sol. Na evidência dos elementos, ele se mexe, se dilata, se estende , se distende e modifica seus volumes. Toda genealogia, esse banho estelar primitivo onde cintilam as estrelas com as quais, mais tarde, se fabricam mapas do céu, depois topografias luminosas nas quais desponta a Estrela do pastor – que meu pai foi o primeiro a me ensinar – entre as constelações diversas.”

Ela é uma jornalista que anda pelo mundo. Abandonou a profissão, mas não o olhar sensível e inteligente. Abraçou o mundo desde que nasceu. Talvez uma homenagem ao pai, um judeu de origem romena. Linda, louca desvairada, intensa e compulsiva em tudo que faz. Chega a ter desprezo pelo seu próprio talento. E de muitos risos. Defensora da pedagogia do riso. Uma ex-aluna muito especial. Em suas andanças pela Grécia.


“O desejo de viagem tem sua confusa origem nessa água lustral, tépida, ele se alimenta estranhamente dessa superfície metafísica e dessa ontologia germinativa. Ninguém se torna nômade impenitente a são ser instruído, na carne, pelas horas do ventre materno, arrendondado como um globo, um mapa-múndi. O resto é um pergaminho já escrito.”

“Os andarilhos, os vagabundo, os errantes, os que pastam, correm, viajam, vagueiam, flanam, palmilham, já e sempre em oposição aos enraizados, aos imóveis, aos petrificados, aos erigidos em estátua. A água dos riachos, corrente e inapreensível, viva, contra a mineralidade das pedras mortas. O rio e a árvore.”
(só ao final da série vou dizer quem é o autor dos textos sobre o significado de viajar)
NOTA I – Todo JORNALISTA trabalha com noções de comparação. Somos os únicos que , em principio, temos por obrigação a leitura de mais de um jornal. Vale a pena um exercício de comparação das quatro revistas semanais. Assim com os editorais do jornalões. Especial destaque para “O mal a evitar” e “A imprensa no pós-Lula”, ambos do “Estadão”, dias 25 e 26 últimos, respectivamente. É quase certo que haverá algum comentário na próxima edição de Carta Capital.
NOTA II – Estou pegando leve. Não tenho nada a comemorar. Quando tudo começou, independente dos desdobramentos que poderiam ser favoráveis ou não, estava garantido que os meus objetivos já tinham sido atingidos. Nunca estarei – a estas alturas da vida – orientado por sentimentos de vingança. É certo que, em nenhuma circunstância, abrirei mão do direito de expressar o que penso. Ainda vou poder agradecer, em algum outro momento, a todos os que não se manifestaram em solidariedade mesmo sabendo quem eu sou. Qualquer ato solidário de integrantes da rede de conivências corporativas me deixaria em uma situação incômoda. E sob suspeita. Assim, aos trancos e barrancos, vou construindo uma história de vida da máxima dignidade.




