Evandro apagou a luz
Não houve choro nem estardalhaço. Mas a pressão embalada em frases do tipo “Pensa bem, aqui você tem liberdade, melhor ficar” só serviram para alimentar a angústia. O sofrimento em decidir o futuro se manifestou de maneira devastadora no fotógrafo Evandro Teixeira, 73 anos. Uma dor de barriga o deixou nocauteado por uma semana. Só passou quando tomou a decisão mais difícil da carreira: pedir demissão do Jornal do Brasil depois de um “casamento feliz” de 47 anos. Desde que o empresário Nelson Tanure anunciou o fim da edição impressa do JB, sufocado em dívidas, uma pergunta martelava a cabeça de Evandro. “O que é que eu faço agora?” Nada contra a era digital – o JB tem agora apenas a versão online. Difícil era continuar vendo o jornal, que já foi um dos maiores do País, se esfarelando.

Mesmo para ele, testemunha da lenta agonia do Jornal do Brasil, os últimos dias na sede no Rio Comprido, na zona Norte, foram difíceis. Pairava na redação a ameaça de uma extensa lista de demissões que deixaria a equipe do jornal virtual reduzida a um quinto dos jornalistas da edição impressa. Na fotografia o corte foi radical. Dos 15 fotógrafos que lá trabalhavam, sobraram três. “Foi demitido até o Paulo Nicolella, um excelente fotógrafo que estava lá há 20 e tantos anos”, lamenta Evandro. Dos quatro encarregados de transmitir fotos, restou um. “Foi uma semana dramática. É difícil acabar com um casamento tão longo, mas estava na hora. Tomei coragem e fiz a carta da demissão”. Na sexta, dia 27, Evandro deixou a redação carregando a última caixa com livros e fotos. A maior parte do seu arquivo ele havia transferido para o apartamento na Gávea, onde mora com a mulher, a paisagista Marli. Sua saída surpreendeu quem ficou. Em quase cinco décadas a história de Evandro e a do Jornal do Brasil se misturaram. Um não vivia sem o outro. “Evandro desistiu do JB”, avisava um funcionário do jornal a quem procurava o fotógrafo na redação terça passada.

Ayrton Sena, Rio de Janeiro, 1989

Leila Diniz, 1971
Na verdade, Evandro insistiu por anos. Desde a primeira grande crise do jornal, nos anos 90, quando salários atrasavam e já não havia dinheiro para grandes investimentos em reportagens, Evandro resistiu às investidas. “Recebi convites até para trabalhar fora do Brasil.” Mas por que um fotógrafo que a empresa alemã Leica, fabricante de poderosas máquinas fotográficas, considerou um dos 45 mais importantes do mundo, ao lado de Cartier-Bresson, continuou num jornal em visível decadência? Por que um fotógrafo que é verbete na Enciclopédia Internacional de Fotografia, que tem fotos no acervo de museus como o Beauborg, em Paris, que expõe em Milão e Nova York, preferia publicar suas fotos num veículo sem prestígio?
O texto completo de Márcia Vieira , no jornal “Estadão” AQUI
faltam menos de 24 horas para o golpe no Chile
“Estava no Chile, no enterro de Pablo Neruda. Em setembro de 1973, logo depois de o golpe militar derrubar Salvador Allende, Evandro desembarcou em Santiago, enviado pelo Jornal do Brasil. No auge da ditadura, os jornais brasileiros foram proibidos pela censura de dar manchete à queda de Allende. O JB obedeceu. Sua primeira página não tinha títulos em letras garrafais. Mas um enorme texto contando todos os detalhes do golpe ocupava a primeira página.” Da matéria sobre o fotógrafo Evandro Teixeira.
FALTAM MENOS DE 24 HORAS PARA O GOLPE NO CHILE. ALLENDE VIVE.
NOTA FINAL: toda uma geração de jornalistas, intelectuais militantes de esquerda – em sua maioria – ou no mínimo simpatizantes, diplomados em outra coisa qualquer ou não, tinham como leitura obrigatória os Cadernos de Jornalismo do JB. Freqüentei muito esta escola e com o máximo de prazer. Acho que tenho a coleção completa.




