A Itália das lambretas, vespas e scooters
na sequência da postagem de ontem sobre o ato de viajar
“Assim, o agricultor mata o pastor, o camponês assassina o homem das cabras. As razões? A afeição de Deus mais claramente voltada para a futura vítima. A fim de honrar o Criador, Abel oferece gordura e os primogênitos do seu rebanho; Caim, os frutos do seu trabalho agrícola. E o Todo-Poderoso, parece, dá mais atenção ao pastor. Não se sabe por quê. Enciumado, o camponês se lança contra o irmão e o mata. Deus amaldiçoa Caim e, como punição, o condena vagar, a errar. Gênese da errância: a maldição; genealogia da eterna viagem: a expiação – donde a anterioridade de uma falta sempre grudada no indivíduo como uma sobra maléfica. O viajante procede da raça de Caim que Baudelarie tanto apreciava.”
ela andou também ela Itália

“O capitalismo atual condena do mesmo modo à errância, à ausência de domicílio ou ao desemprego os indivíduos que ele rejeita e amaldiçoa. Que crime eles cometeram? Serem inassimiláveis ao mercado, a pátria dos homens do dinheiro. Qual o castigo? As pontes, as ruas, as calçada, os porões, as bocas de metrôs, as estações ferroviárias, os bancos das praças públicas – o aviltamento dos corpos e a impossibilidade de um porto, de um repouso.”

“O viajante concentra estes tropismos milenares; o gosto pelo movimento, a paixão pela mudança, o desejo ardoroso de mobilidade, a incapacidade visceral de comunhão gregária, a vontade de independência, o culto da liberdade e a paixão pela improvisação de seus atos e gestos; ela ama seu capricho mais do que a sociedade na qual vive à maneira de um estrangeiro, coloca sua autonomia bem acima da salvação da cidade, que ele habita como ator de uma peça da qual não ignora a natureza de farsa.”

“Longe das ideologias da aldeia natal e da terra, do solo da nação e do sangue da raça, o errante cultiva o paradoxo da forte individualidade e sabe se opor, de maneira rebelde e radiosa, às leis coletivas. Zaratustra, que odeia as cidades e a vaca multicolorida, é a sua figura tutelar.”
(só ao final da série vou dizer quem é o autor dos textos sobre o significado de viajar)





Rastreador de bundões — 29/09/2010 @ 14:07
Assim falou wu; tá falado!