Está tudo por acontecer
“Dos quatro membros originais do ‘Clube do Bangue-Bangue”, Ken Oosterbroek morreu baleado num confronto e Carter se matou. Gary Bernerd, uma espécie de quinto elemento do grupo também cometeu suicídio. Sobraram Marinovich -ferido quatro vezes – e João Silva, que registraram a saga no livro ‘Clube do Bangue-Bangue’ (tradução Manoel Paulo Ferreira, Cia das Letras), que em maio teve sua versão cinematrográfica apresentada no Festival de Canes”.

O caderno Ilustríssima, Folha de São Paulo, edição do último domingo, 27.06.2010,publicou uma matéria sobre um sobrevivente do Clube do Bangue-Bangue , o fotógrafo Greg Marinovich. Deveria ser de leitura obrigatória nas faculdades de comunicologia e nos departamentos de fotografia dos jornais da mídia corporativa, onde a regra tem sido a cenografia. Prática denominada, em passado não muito distante, de cascata. Ou muita fotocampana. Prática cartográfica e policialesca. Coisa já era digital e das grandes teles. Do “jornalismo” integrado ao aparelho policial.

“A tocha humana” deu um Pulitzer a Greg Marinovich. Greg se comove “sobretudo ao lembrar de Kevin Carter, o amigo que se matou em 1994, aspirado a fumaça do escapamento do seu carro, três meses depois de também ter conquistado um Pulitzer pela célebre foto de um abutre espreitando uma criança famélica do Sudão. Não estamos falando de fotógrafos com 50 prêmios. Mas de profissionais que ganharam apenas um Pulitzer. Fotos para a história do fotojornalismo. O destino das perfumarias é a lata do lixo. Não é provocação. É o que eu penso.

Marinovich diz ” se alguém precisa de ajuda, eu ajudo, A única pergunta é: devo fotografar ou ajudar primeiro? Eu não sou uma câmara, sou uma pessoa, diz ele.” E a seguir “o problema é se você ajudar alguém em detrimento de fazer o seu trabalho. Clique aí – A foto em si é uma ação, é um modo de interferir na realidade”.

Leitura obrigatória. Ao final da matéria, o fotógrafo Marinovich diz que “adoraria ver um um jogo num estádio brasileiro. De preferência um Flamengo x Santos. Quem sabe, quando as crianças crescerem, Leonie e eu nos mudemos para o Brasil ou para a Colômbia. Na América do Sul, assim como na África, tudo ainda está por acontecer”.





João Perez — 28/06/2010 @ 10:08
O único problema de Kevin Carter é que o indivíduo não socorreu a criança que, por instinto, rumava em direção a um abrigo da ONU, na busca de sua sobrevivência. Carter tirou a foto e partiu. Isso não se chama Jornalismo, tampouco Fotografia. Entendo se tratar de oportunismo, em essência. Carter foi profissional como um matador de alguel o é. Acompanho seu blog, diariamente. Parabéns pelas matérias.
Pati Benvenuti — 28/06/2010 @ 10:18
Eu li essa matéria e, na hora, lembrei de ti. Vou cavocar esse livro em algum sebo, sem falta.
Abração!
Eduardo Seidl — 28/06/2010 @ 12:30
Assim que começou a Copa, lembrei deste livro, puxei da estante e comecei a reler. É forte, triste, em certo momento inclusive deprime. Mas importantíssima esta memória.
Sobre a atitude do Carter, não consigo imaginar as sensações vividas por ele naqueles momentos, para avaliar o comportamento. Onde colocar a câmera nestes momentos?
Já vi coisas levemente parecidas e me abalei. Bom ver o Ponto de Vista levantando bom temas novamente.
Abraços Ungaretti, João e Pati
JorgeBarata — 1/07/2010 @ 03:06
Tenho e li esse livro. Simplesmente um soco no estômago. Existe um documentário da NatGeo ¨Fotografos de Guerra” nota DEZ, que levanta a questões sobre fotografia digital, processos de produção de imagens.
O que posso entender desses profissionais é que quando eles entram “em campo” vestem um personagem. Um abraço.