Nossos estiletes
“O estilete usado para escrever volta-se contra as imagens que nós fizemos do e a partir do mundo objetivo. Ele volta-se contra qualquer zona do imaginário, do mágico e do ritual, que colocamos diante do mundo objetivo. Ele dilacera nossas representações do mundo para organizá-las de forma esfarrapada em linhas ordenadas, em conceitos que podem ser contados, narrados e criticados. O mito da criação do homem mostra o engajamento antimágico de todo escrever. Por isso, qualquer escrita é terrível por natureza: ela nos destitui do universo das imagens que, em nossa consciência anterior à escrita, deu sentindo ao mundo e a nós.”
- Vilém Flusser
Achei esta referência aos estiletes. O jornal “Estadão”, recentemente, passou por uma reforma gráfica e editorial. Acabou, por exemplo, com o Caderno de Cultura das edições dominicais. Criou para a edição de sábado um caderno, equivalente, com o nome de “Sabático”. No último domingo (23.05), o jornal “Folha de São Paulo” apresentou sua edição, também, reformulada. Acabou com o Caderno Mais e, em seu lugar, apresentou o caderno “Ilustríssima”. Não custa lembrar que o primeiro Caderno Mais ( de 16 de fevereito de 1992) tinha como capa e matéria central os Parangolés de Hélio Oiticica.
No primeiro “Sabático” tivemos uma bela entrevista com Umberto Eco. Existem indicativos de que a ideia editorial é a de manutenção de um caderno de cultura no seu sentido mais tradicional. O “Ilustríssima”, da Folha, parece apontar mais na direção de um caderno de variedades. A chamada de capa é “Cracolândia”. Uma matéria de três páginas com ilustrações em xilogravuras. Uma texto de análise sem qualquer sentido de criminalização. E muito menos de “marquetim”. Vale destacar desta matéria que em nosso país “… não há dados estatísticas que comprovem a perda de terreno da cocaína paras as drogas sintéticas. Nos Estados Unidos, porém, o consumo de cocaína chegou ao patamar mais baixo nos últimos 30 anos, segundo o National Institute of Drug Abuse.
A ocupação dos morros do Rio pelas UNIDADES DE POLÍCIA PACIFICADORA (UPPs) é um subproduto dessa perda de rentabilidade dos traficantes, segundo Cerqueira. A polícia entrou nos morros porque os TRAFICANTES estão com menor PODER DE FOGO PARA REAGIR , e porque já não têm TANTOS RECURSOS PARA PAGAR PROPINA AOS POLICIAIS. Tudo é resultado da queda de rentabilidade da cocaína, de acordo com o pesquisador.
O fenômeno das milícias – grupo de policiais que atuam como segurança privada também tem ligação com a redução do lucro da cocaína, na visão do economista.” Segundo ele ”quando cai o volume da proprina dos policiais, eles saem em busca de novos negócios. As milícias são um desses empreendimentos.”
Não estamos afirmando que um jornal seja melhor do que outro. Mas, em algumas conjunturas e por razões diversas, freqüentemente, um deles passa a brigar menos com a notícia. Produzem matérias que não são destinadas aos cartógrafos do sistema. A matéria aponta para uma obviedade muitas vezes ocultada. O mercado de drogas funciona pelas leis do Deus Mercado.
O texto da “Folha” não foi produzido por um “repórter” contador de “causos”. Zerolândia conta “causos” e diz que é reportagem investigativa. Nunca será demais lembrar que a polícia paulista está matando em média uma pessoa por dia.
NOTA – o desenho da página ainda não está completo. Vamos postar vídeos, material fotográfico, sons e abrir links para matérias publicadas em oito anos da revista Pontodevista, além da reedição de textos especiais, desse mesmo período, mas com o desenho atualizado. Aos poucos vamos adquirindo maior domínio sobre as novas ferramentas.
A IMAGEM
Da série grafismos. Filme Tri-X Iso 400, nenhuma regulagem de velocidade ou abertura. Máquina actionsampler, de fabricação chinesa. Centro de Porto Alegre, Terminal de ônibus da Praça XV, proximidades do Mercado Público. Cada fotograma registra quatro quadros, com movimento no sentido anti-horário. No caso não havia movimento. Ou a movimentação foi mínima. Clicando na imagem ela ficará ampliada




