Em uma ESCOLA DE JORNALISMO seria inconcebível, entre tantas outras coisas que os atuais cursos não possuem, a ausência de uma sequência de disciplinas e seminários sobre relações internacionais. Nesse momento, com a agilidade característica da profissão, uma boa parte das atividades estariam voltadas para o estudo do que está ocorrendo no Oriente Médio considerando, inclusive, a singularidade em que EUA e Israel não estão se entendendo.
A legenda: “ÍCONE - Com camiserta do Che, palestino junta pedras para atirar em policiais israelenses em Jerusalém”. Foto do caderno internacional do “Estadão”, edição de sábado, páginam A20. de Oded Balilty/Ap.
Só esta foto seria o tema de uma aula. Seria possível falarmos da força da imagem de Che e de sua figura. A força do vermelho dos lenços palestinos e a luta por um território. Sobre os rostos cobertos e a idéia zapatista de que o poder teme o poder das máscaras. Sobre o fato de que uma população muito jovem de palestinos briga, tendo por armas apenas pedras. Em uma ESCOLA DE JORNALISMO, estimulado pela energia dos olhares de jovens estudantes, arrisco dizer que sou capaz de dar uma boa aula, de 45min, sobre esta foto. É evidente que chamaria a tenção para o fato de jornais que brigam com a notícia temem a subjetividade sugerida pela imagem. Sem arrogância ou pretensão, uma aula daquelas que ninguém se mexe na cadeira. Para não ser esquecida. Estou estimulado a tentar mesmo no ambiente da comunicologia.
A disciplina de JORNALISMO COMPARADO, por exemplo, estaria trabalhando noções de comparação dos textos e fotos publicadas, destacando os jornais que bringam mais ou menos com a notícia. Uma das disciplinas de FOTOJORNALISMO teria, também, boa parte de seu conteúdo voltado para a análise das subjetividades sugeridas pelo material fotográfico publicado. E se na semana seguinte ocorresse um outro grande acontecimento internacional o enfoque das aulas mudariam.
Em todas as áreas, a ESCOLA DE JORNALISMO teria o “time” intenso e vivo da própria profissão. Estamos apontando, apenas, um pequeno aspecto do que seria necessário mudar para termos, de fato, futuros JORNALISTAS com o velho sentido subversivo da atividade de informar, criticamente. Nos últimos 20 anos escrevi um monte de coisas nessa direção.
ESCOLAS DE JORNALISMO sem a fantasia globeleza. Sem qualquer relação com cursos de Publicidade e Relações Públicas. JORNALISTAS não participam de entrevistas coletivas. Não fazem uso de foto divulgação. Perseguem, de forma incansável, a verdade factual; não abrem mão do espírito crítico e exercem absoluta vigilância sobre todo e qualquer tipo de poder.
Comício pelas Reformas de Base, em 13/03/1964, na Central do Brasil, quando o presidente João Goulart fala pela última vez ao país, anunciando a Reforma Agrária.
Francisco Julião (centro), líder das Ligas Camponesas, dirigindo reunião pela Reforma Agrária. Na direta Luis Carlos Prestes, dirigente do PCB.
Manifestação das Ligas Camponsesas, na Paraíba, em março de 1964.
Dirigente comunista Carlos Marighella ferido ao resistir à prisão, no Rio de Janeiro, em maio 1964. Principal liderança da luta armada contra a ditadura foi o criador da ALN (Aiança Libertadura Nacional).
A política da perfumaria, dos secos e molhados, da variedades, disfarça formas ideológicas voltadas para a política do esquecimento. O “esquecimento” é uma ideologia. A mídia corporativa faz a sua parte.
Escuto falar e vejo muita gente brigando por Reforma Agrária desde 1962 quando – ainda bem criança – fui levado por meu pai a um Congresso de Camponeses em Belo Horizonte. Não tenho certeza, mas acho que o encontro foi realizado no Cinema Amazonas. Imagino que o “velho” estava cumprindo alguma tarefa do Partidão (PCB).
A mídia corporativa não mostra que a Reforma Agrária, em nosso país, foi feita para não dar certo. Uma grande matéria jornalística – com o sentido do velho e subversivo jornalismo – mostraria que os aparelhos de Estado, em seus variados níveis, atuam para que a reforma não aconteça. Por isso mesmo, a criminalização do MST se faz de todas as formas possíveis. Em especial com matérias sobre a venda de lotes. Coisa de “campana policial” e não de jornalista.
A ideologia do “esquecimento” é uma poderosa arma contra os movimentos sociais. Não seria um despropósito pensarmos alguns cursos sobre história dos movimentos sociais. Exposições fotográficas com este mesmo tema. Uma mostra do Cinema Novo. Os “direitosos”, da mídia corporativa, já andam dizendo que Glauber Rocha é uma merda.
O espaço está aberto para a criação de uma verdadeira Escola de Jornalismo. Está começando a se colocar na ordem do dia a necessidade de iniciarmos a formação de um outro tipo de jornalista. Um agitador com uma razoável formação em história, um generalista em ciências humanas e com uma inserção social povão. Tecnólogos digitais é pra Globo. Eles formam os deles e nós precisamos formar os nossos.
Precisamos de um novo tipo de agentes subversivos - JORNALISTAS - para os tempos atuais. Luta de classes existe, sim.
Recomendamos que cada um rogue uma praga horrível contra uma instituição malígna, tal como Zerolândia (Jornal Zero Hora, da RBS). Pena que sou pouco lido por eles. Poderia aumentar minha coleção de processos.
Uma técnica adaptada dos feiticeiros da Malásia consiste em enviar para a empresa um pacote com uma garrafa selada com cera negra. E dentro dela: insetos mortos, escorpiões, lagartos e junto um saco com terra de cemitério (“gris-gris” na terminologia vodu), junto com outras substâncias nocivas; alguns ovos perfurados por alfinetes de ferro, uma máquina de escrever antiga e de ferro, também; e um pergaminho com a palavra BUNDÕES. Além, é claro, de uma lista com os respectivos apelidos. Nenhum deles inventados por nós. Ou uma outra versão com todo o material “cascateiro”, tanto em foto como em texto. Os Bundões adoram alternar o comportamento de arrogância com o de vítimas.
Não sou vítima de nada. Na década de 70, lutando contra a ditadura, fui parar na cadeia. Na academia me posicionei quanto ao consumo de maconha por estudantes. Fui submetido a uma comissão de inquérito. Por pensar. Critiquei showrnalistas de Zerolândia e estou sendo processado. Episódios que tornam meu currículo uma preciosidade. E não tenho douturado em porra nenhuma. Sou um jornalista que, por circunstância da vida, nos últimos 20 anos, trabalha como professor no ambiente da comunicologia. Um descuido do sistema. Ideia que foi expressa por alunos. Estou incendiando, semanalmente, as salas de aula. E, assim, identifico os que possuem o DNA da profissão, verdadeiros JORNALISTAS. Estes terão, sempre, toda a minha atenção. Estou me movimentando como se estivesse iniciando esta atividade de “ensinar”. Sou um professor não professoral. Faço um prazeroso esforço para me tornar mestre. Ainda chego lá. Uma boa parte do que não posso escrever, em função de ações na Justiça, digo em sala de aula.
Vale lembrar que nenhum dos 30 melhores alunos, pelos meus critérios evidentemente, em vinte anos de atividade na Fabico (Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia dda UFRGS), foi trabalhar na RBS. Em nenhuma área do jornalismo. Talvez meia dúzia de exceções e por muito pouco tempo. Quando ocorre, são clandestinos. Se disfarçam de Bundões. Já fiz esta relação na ponta do lápis. Os meus critérios são resultantes da soma das experiências em 20 anos como professor, 40 de profissão e 45 como militante político. Devo ter uma boa margem de acerto no que estou dizendo.
Os cães de guarda do sistema produzem lixo showrnalístico.
RESISTÊNCIA
A foto é do site do “Estadão”. A lengenda: “Palestinos arremessam pedras contra soldados israelenses perto da Mesquita Al-Aqsa”. Uma nova geração de jovens palestinos está nas ruas enfrentando o poderio israelense-americano com pedras. O jornal “Estadão” é conservador, mas não briga com a notícia, pelo menos não faz isso com tanta regularidade. O site Estadão/fotos é bom. Vale visitar.
ANOTAÇÃO – Em um reunião onde se discutia a organização de uma atividade, na área da fotografia, surgiu a possibilidade de vir a ser convidado. Quase que imediatamente alguns participantes reagiram com a afirmativa de que “esse cara tem problemas com a RBS e talvez não seja interessante convidá-lo.”
E assim vamos vivendo. Não tenho o que dizer. Mas, lá pelas tantas, não posso deixar de pensar que uma atividade que tem por critério a boa ou má relação com a RBS, não me diz nada. Não deve valer a pena.
Redenção (PA), quinta-feira, 18.03.2010, fim de tarde
O texto não tem nenhuma relação com a foto. Esta é um fragmento quando do registro da passagem deste deficiente de sua cadeira para o banco.
História, materialismo, monismo, positivismo e todos os “ismos” desse mundo são ferramentas velhas e enferrujadas que já não preciso ou com as quais eu não me preocupo. Meu princípio é a vida, meu Fim é a morte. Gostaria de viver minha vida intensamente para poder abraçar minha morte tragicamente.
Você está esperando pela revolução? A minha começou muito tempo atrás! Quando você estará preparado? (Meu Deus, que espera sem fim!) Não me importo em acompanhá-lo por um tempo. Mas quando você parar, eu prosseguirei em meu caminho insano e triunfal em direção à grande e sublime conquista do nada!
Qualquer sociedade que você construir terá seus limites. E para além dos limites de qualquer sociedade os desregrados e heróicos vagabundos vagarão, com seus pensamento selvagens e virgens – aqueles que não podem viver sem constantemente planejar novas e terrivéis rebeliões!
Quero estar entre eles!
E atrás de mim, como à minha frente, estarão aqueles dizendo a seus companheiros: ‘voltem-se a si mesmos em vez de aos seus deuses ou ídolos. Descrubra o que existe em você; traga-o à luz; mostrem-se!’
Porque toda pessoa que, procurando por sua própria interioridade, descobre o que estava misteriosamente escondido dentro de si, é uma sombra eclipsando qualquer forma de sociedade que possa existr sob o sol!
Todas as sociedades tremem quando a desdenhosa aristocracia dos vagabundos, dos inacessíveis, dos únicos, dos que governam sobre o ideal, e dos consquistadores do nada, avança resolutamente.
Iconoclasta, avante!
’O céu em pressentimento já torna-se escuro e silencioso!’
Hakim Bey enviou este texto,
solicitando sua publicação
em uma sexta-feira.