ponto de vista

sonoridades

arquivo »

vídeos e fotos

  • ero5
  • ero4
  • ero3
  • ero6
  • Fotorreportagem - Mulheres de Coca, Mulheres de Pedra
  • EZLN - Himno Zapatista (Ejercito Zapatista de Liberacion Nacional)
  • Tribute to Subcomandante Insurgente Marcos
  • Video Inedito del Ché Guevara

Escrever é "confiar no caráter inesgotável do murmúrio." de André Breton. É minha contribuição por hoje.

@editorwu no Twitter

O RETRATO


Claudio Bandeira é engraxate no centro de Porto Alegre. Um retrato é sempre resultante da conjungação de pelo menos duas variantes: expressões de rosto e as ações do fotógrafo. Este escolhe um determinado enquadramento, escolhe a lente, iluminação e o momento exato do disparo. O retrato seria um rosto-acontecimento-fotográfico. (foto e texto de wu) 

        “As primeiras fotografias eram, todas, a preto-e-branco, demonstrando que tinham a sua origem numa determinada teoria Óptica. A partir do progresso da Química, tornou-se possível a produção de fotografia a cores. Aparentemente, pois, as fotografias começaram por abstrair as cores do mundo, para depois as reconstituírem. Na realidade, porém, as cores são tão teóricas como o preto e o branco. O verde dos bosques fotografado é imagem do conceito de ’verde’, tal como foi elaborado por determinada teoria química. O aparelho foi programado para transcodificar um tal conceito em imagem. Há, por certo, uma ligação indireta entre o verde do bosque fotografado e o verde do bosque lá fora: o conceito científico de ‘verde’ apoia-se, de algum modo, sobre o verde percebido. Mas entre os dois verdes intepõe-se toda uma série de codificações complexas.” (de Vilem Flusser)

PRETO-E-BRANCO-E-COR


Lomography – negativos 6×6 – centro de PA – fotos Wu

“… se o observador ingênuo percorrer o universo fotográfico que o cerca, não poderá deixar de ficar pertubado. Era de esperar: o universo fotográfico representa o mundo lá fora através deste universo, o mundo. A vantagem é permitir que se vejam as cenas inacessíveis e preservar as passageiras (o que, afinal de contas, seja admitido, já é uma filosofia da fotografia rudimentar). Mas será verdade? Se assim for, como explicar que existam fotografias a preto-e-branco e fotografias a cores?  Haverá, lá fora no mundo, cenas a preto-e-branco e cenas coloridas? Se não, qual a relação entre o universo das fotografias e o universo lá fora? Inadivertidamente, o observador ingênuo encontra-se mergulhado em plena filosofia da fotografia, a qual pretendeu evitar (…)  a tentativa de imaginar o mundo a preto-e-branco é antiga. Faltavam apenas os aparelhos adequados a tal imaginação.” (Vilém Flusser)          

NOS BONS TEMPOS


Colégio Sion, 10 de fevereiro de 1980, fundação do PT. A atriz Lélia Abramo (à esq.), o historiador Sérgio Buarque de Holanda, Olívio Dutra, Lula e Jaço Bittar. (foto Arquivo Central da Unicamp) 

          “Em circunstâncias habituais, o fotógrafo vive o totalitarismo dos aparelhos. Os seus gestos são programados, a sua consciência e sensibilidade têm carácter robotizado. Alguns fotógrafos mais inquietos lutam contra essa automação estúpida, tentam ‘enganar’ o aparelho introduzindo nele elementos não previstos, restabelecendo a questão da liberdade num contexto de dominação das máquinas. Muitos desses esforços acabam por ser novamente recuperados pelos aparelhos, como revelação de possibilidades até então desconhecidas, mas imediatamente catalogadas no repertório de suas categoriais. Uma filosofia da fotografia deve ter por função intervir nesse jogo, aprofundando as suas contradições e desmascarando os seus limites.”     (de Arlindo Machado, professor da área de comunicação visual da  Universidade de São Paulo – USP – )

Foto de Alessandro Bianchi/Reuters. Caderno Dois do “Estadão”, edição de setembro de 2009. 

IMAGENS E PALAVRAS IMPARCIAIS

        “Percorri os escombros da favela incendiada, no Jaguaré, no dia seguinte. Num canto ainda saía fumaça da madeira caída. O fogo comeu os barracos por cima até chegar ao chão, que, molhado pela água dos bombeiros, reteve muita coisa famuscada ou parcialmente queimada. Roupas coloridas pareciam confete sobre o solo negro. Quase 350 famílias ficaram sem nada.
        A frase interrompida pelo fogo em uma páginas de fascículo da Secretaria de Educação diz que é texto sobre os ‘direitos da criança’. Outra página, queimada pelas bordos e retorcida, propõe ‘questões para comprensão’ no que sobrou: ‘ao conjunto de pessoas que habitam determinado lugar é dado o nome de população”. ( esta é a abertura do texto escrito pelo fotógrafo e professor de filosofia José de Souza Martins; autor, também, das fotos publicadas pelo jornal “Estadão”)

A edição do “Estadão” deste último domingo (18.10.2009) é um primor. Um jornal para ser lido por inteiro. A matéria “A imparcialidade das chamas, em imagens e palavras” é da página J3 do Caderno Aliás.
       Pela quantidade de páginas que arquivo, de uma edição, tenho uma noção da qualidade do material publicado. Edição dominical do jornal DOS GAÚCHOS foi para o lixo. Não recortei nada. Nem mesmo para criticar.
       Estamos sob censura.

       Outro trecho do texto: “Nas proximidades, dois homens conversavam. ‘Isso é castigo’, diz um deles. irrito-me e comento: ‘Estranho! Só pobre é castigado. Só favela pega fogo, queimando casa de um montão’. Um deles responde, supreso: ‘É mesmo’!’ E se retira. Quatro crianças caminham na minha direção: ‘Moço! Tira uma foto?’ Tiro. ‘Quando é que a gente vai aparecer na televisão?’ Os pobres querem ser vistos (…) no fim da tarde, numa das pontas da favela aparece um grupo que vem trazer lanches e café com leite para os desalojados (…) no cenário escuro dos caibros e paredes carbonizados, bate forte o coração luminoso dos que se esquecem do eu e se pensam como nós.”

       Comparem as fotos e este texto com as matérias públicadas pela mídia corporativa, um dia após o acontecimento – se é que alguém voltou ao local – e, assim, poderão ter uma breve noção da pobreza do jornalismo que se pratica na atualidade. Claro, é evidente, com raríssimas exceções. As fotos publicadas não estão com boa definição, mas não existem quaisquer indicativos de “cascata”, a praga que tem destruído o fotojornalismo. 

       No ano de 1910, em Bruxelas, foi realizado o V Congresso Internacional da Fotografia. No encontro ficou decidido, entre outras coisas, designar o termo documento somente às imagens fotográficas que poderiam ser utilizadas como material de estudos diversos. Esta era uma discussão do início do século passado.