Roselaine trabalha como garçonete em um restaurante do centro. Lá, durante o dia, precisa parecer “normal” e ser uma pessoa discreta, segundo ela. Assim mesmo usa muitos adereços, mas nenhuma maquiagem.
Depois de um dia de muitas horas atendendo “um mundo de gente”, ainda no ônibus, começa a se transformar na verdadeira Roselaine. Começa a ser produzir. Na sexta-feira, em um dos ônibus da cidade (PA), os preparativos já eram de transformação total. Para cair na noite. Esquecer a semana de trabalho puxado. Segunda tem início tudo de novo, garantiu. Ela volta a ser a garconete de um restaurante do centro da cidade.
Sem se importar com o olhar das pessoas, sentada no banco do fundo do ônibus, se dispôs a se deixar fotografar e dizer duas, três coisas da sua história de muito trabalho. Foram cinco fotos com o ônibus em movimento, na avenida esburacada, e dois minutos de conversa. Minha curiosidade jornalística foi derrotada por um dia e uma semana de muita correria. Tenho consciência que posso ter perdido uma boa história. Ela estava mais interessada na maquiagem; e, em se deixar fotografar do que em conversar.
Continuo, como jornalista e professor de jornalismo da UFRGS, sendo impedido de exercer a atividade de crítica a quem trabalha na mídia corporativa. Um funcionário de carreira do PRBS (Rede Brasil Sul de Comunicações) obteve, na Justiça, uma medida provisória que nos obrigou, inclusive, a retirar da rede todo o conteúdo da revista e blog Pontodevita. Não estou sendo processado por um ex-aluno ou por um velho profissional, da minha geração com quem tenha trabalhado no passado.




Continuo impedido – como jornalista e professor de jornalismo – de estabelecer comparações como método de crítica à mídia corporativa. Mesmo valorizando os grafismos fotografei pessoas. Não é preciso fornecer número de telefone celular para registrar a pulsação das ruas. O showrnalismo é cenografia. Porto Alegre se prepara para a Feira do Peixe. A “ditamidiática” é uma prisão invisível. Ela produz bens simbólicos (muitas imagens) que sugerem subjetividades. Tudo descartável.

Continuo sendo censurado. Estou impedido, como jornalista e professor da UFRGS, de continuar exercendo a atividade de crítica à mídia local.
Todas as vezes que se apresenta no Largo Glênio Peres, centro de Porto Alegre, Vino Amaral reúne um bom público. O povão gosta de sua música. Uma oportunidade para o registro de rostos de nosso povo.
Não é um jovem e nem tão pouco um rosto bonito pelos padrões da mídia corporativa. Esta imagem não tem lugar no showrnalismo. Fotojornalismo é rebeldia, permanente.
Assim como este rosto também não. Showrnalistas trabalham, cada vez mais, com os padrões da revista Caras. Estou proibido de ser mais específico. E poderia – a partir desta sequência de fotos – estabelecer importantes diferenças com o showrnalismo.
Este é um rosto de uma brasileira. Robert Capa dizia: “se a sua foto não está boa é porque você ainda está distante de seu objeto.” Estou impedido de especificar e fazer comparações.
Fotocampana não é fotojornalismo. O jornalista é antes de um tudo um negociador. Negociamos por nossa habilidade em conversar, por um olhar, por um gesto e, antes de mais nada, pelo fato de que devemos ser sempre grandes “escutadores”. Antes de escrever, escutamos. Fotojornalista tem um lado. Nosso olho não é isento.
Esta estranha figura assistiu toda a apresentação de Vino Amaral. Esta postagem teria um outro conteúdo – de sentido comparativo- com fotos da edição de hoje de Zerolândia.
Um rosto profundamente marcado pela velhice é bonito. Um olhar que sugere uma história. As ruas são grandes seres vivos.
Enquanto estiver submetido ao silêncio vou tentar, sem arrogância ou pretensão (como sempre), apontar o quanto é pobre o showrnalismo voltado para a cidade. É só release e foto/divulgação. Ou fotos de buracos. Assim, mais uma vez, pretendemos mostrar que jornalismo é subversão. O que aí está é perfumaria, das “gentes jovens e bonitas”. Todas estas fotos foram feitas com uma lente 55mm.
É prefeitamente compreensível que o Sindicato dos Jornalistas não tenha dito nada sobre a censura a Pontodevista. Não consigo entender a demora da UFRGS em se pronunciar sobre o mesmo fato, considerando que sou apontado , nos últimos 20 anos, em todos os processos de avaliação, como sendo o melhor professor do curso de jornalismo. É a primeira vez que estou usando esta informação. O conteúdo do nosso trabalho sempre esteve voltado para o ensino.
Existirá ou não a denominada rede de conivências corporativas. Qual a sua opinião?
O “olhar do povo” é frequentemente embotado pelas imagens da mídia corporativa. Existe uma disputa – luta de classes – na produção de imagens como bens simbólicos. A mídia corporativa joga pesado. Este era olhar de quem estava atento à musicalidade de Vino Amaral.
Continuo sob censura. Com ou sem diploma. Não consigo ficar sem escrever e fotografar. Nos últimos tempos faço registros em vídeo. E não sou multimídia. Sou jornalista que faz, flanando. Nas ruas existe pulsação. Vida. Em muitos casos doída, é verdade. Perdemos os limites. Queremos todas as histórias. E todas são grandes histórias. Com o sentido de intensidade que todo jornalista deveria ter. Em algum momento vamos encontrar João do Rio. Estou sempre procurando por ele. Sentamos ao lado destes dois moradores de rua e durante quase uma hora escutamos grandes ensinamentos. Sim, de vida. Eles falam em liberdade. Eles usam esta palavra. Fiquei emocionado. Não lembramos a última vez que escutei um estudante de “comunicologia” usando esta expressão. Nenhum blábláblá.
Casimiro (D) e Antônio vivem nas ruas. Casimiro quase não fala e diz nunca ter estudado. Antônio tem segundo grau incompleto e conta que já encontrou um livro de Dostoiévski no lixo. E leu. Declamou uma poesia que não consiguimos reproduzir. Não usamos gravador e bloco de anotações.Tentam viver do lixo reciclável. A crise para eles não é ficção. Circulam por uma avenida de um bairro comercial e de classe média de Porto Alegre. Pela manhã vendem o material recolhido e arrecadam, diariamente, em torno de cinco reais. Antônio diz que a vida nas ruas é dura, mas não abre mão de um das coisas mais importantes, segundo ele, a liberdade.
Em nenhum momento nos sentimos ameaçados. Sentado ao lado deles tentei ser um igual. É impossível se ter a dimensão do que é viver nas ruas. É preciso dizer a estas pessoas, de saída, que você não é da grupolândia (PRBS). A que criminaliza pedintes. Que você está ao lado deles. Não oferecemos dinheiro em troca da foto ou de uma declaração. Acreditem, prática bem comum no showrnalismo. Assim, cada vez mais tenho a certeza de que não existe a “Casamata do crime”, os “Falcões do Sul”; e, muito menos ainda “O estatuto do desarmamento bandido da Vila Cruzeiro”. Abri a niqueleira na frente deles, antes de me despedir, e mostrei as moedas. Entregamos cinco reais. Era o que tínhamos de grana. Estamos arrebentando com os limites. Jornalismo se faz tendo um lado e com grande carga de emoção. Também presenciamos o espanto dos que passavam. Como que um cara com uma câmera digital estava ali. Sentado e conversando com “pedintes”. Jornalistas não participam de coletivas. Não são anotadores de declarações de autoridades. Não aceitam orientação de só fotografarem gente bonita. Ou só jovens.
Vamos continuar procurando a alma das ruas. Nos bares, lancherias e restaurantes frequentado pelo povo. É onde escutamos as verdadeiras verdades. Todos os dias temos uma história como esta. Almas, utopias e procuras. Agradeço todas as manifestações de solidariedade. Precisamos, apenas, de um tempo para pensar novas transgressões.
Nasci torto. Sou gauche.
**** continuo sendo censurado. Como professor de jornalismo da UFRGS estou impedido de fazer comentários sobre algumas práticas. E a Universidade não vai dizer nada? O conteúdo, tanto da revista como do blog, era utilizado como material didático. A iniciativa é ou não do P-RBS (Partido Rede Brazil Sul de Comunicações)? A iniciativa é apenas do funcionário de carreira com 40 anos de firma? Quem vai se responsabilizar (e pagar) pelos 10 anos de trabalho, voltado para o ensino de jornalismo, que fui obrigado da retirar da rede?
***** divulgem que estou retomando as postagens diárias. Texto escrito na primeira hora da manhã, primeira versão e sem qualquer revisão.
##########REVISTA VEJA DERROTADA NO PROCESSO CONTRA LUIS NASSIF. leia aqui. A postagem é de 01.04.2009.