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IMAGENS E PALAVRAS IMPARCIAIS

        “Percorri os escombros da favela incendiada, no Jaguaré, no dia seguinte. Num canto ainda saía fumaça da madeira caída. O fogo comeu os barracos por cima até chegar ao chão, que, molhado pela água dos bombeiros, reteve muita coisa famuscada ou parcialmente queimada. Roupas coloridas pareciam confete sobre o solo negro. Quase 350 famílias ficaram sem nada.
        A frase interrompida pelo fogo em uma páginas de fascículo da Secretaria de Educação diz que é texto sobre os ‘direitos da criança’. Outra página, queimada pelas bordos e retorcida, propõe ‘questões para comprensão’ no que sobrou: ‘ao conjunto de pessoas que habitam determinado lugar é dado o nome de população”. ( esta é a abertura do texto escrito pelo fotógrafo e professor de filosofia José de Souza Martins; autor, também, das fotos publicadas pelo jornal “Estadão”)

A edição do “Estadão” deste último domingo (18.10.2009) é um primor. Um jornal para ser lido por inteiro. A matéria “A imparcialidade das chamas, em imagens e palavras” é da página J3 do Caderno Aliás.
       Pela quantidade de páginas que arquivo, de uma edição, tenho uma noção da qualidade do material publicado. Edição dominical do jornal DOS GAÚCHOS foi para o lixo. Não recortei nada. Nem mesmo para criticar.
       Estamos sob censura.

       Outro trecho do texto: “Nas proximidades, dois homens conversavam. ‘Isso é castigo’, diz um deles. irrito-me e comento: ‘Estranho! Só pobre é castigado. Só favela pega fogo, queimando casa de um montão’. Um deles responde, supreso: ‘É mesmo’!’ E se retira. Quatro crianças caminham na minha direção: ‘Moço! Tira uma foto?’ Tiro. ‘Quando é que a gente vai aparecer na televisão?’ Os pobres querem ser vistos (…) no fim da tarde, numa das pontas da favela aparece um grupo que vem trazer lanches e café com leite para os desalojados (…) no cenário escuro dos caibros e paredes carbonizados, bate forte o coração luminoso dos que se esquecem do eu e se pensam como nós.”

       Comparem as fotos e este texto com as matérias públicadas pela mídia corporativa, um dia após o acontecimento – se é que alguém voltou ao local – e, assim, poderão ter uma breve noção da pobreza do jornalismo que se pratica na atualidade. Claro, é evidente, com raríssimas exceções. As fotos publicadas não estão com boa definição, mas não existem quaisquer indicativos de “cascata”, a praga que tem destruído o fotojornalismo. 

       No ano de 1910, em Bruxelas, foi realizado o V Congresso Internacional da Fotografia. No encontro ficou decidido, entre outras coisas, designar o termo documento somente às imagens fotográficas que poderiam ser utilizadas como material de estudos diversos. Esta era uma discussão do início do século passado.

NO ESPETÁCULO, VALE TUDO


       Dois livros acompanham a exposição A humanidade em guerra. Estão sendo mostrados os trabalhos de Ron Haviv e de outros sete fotógrafos. Haviv fotografou conflitos em mais de 20 países, tendo trabalhado para a Newsweek, a National Geographic e a New York Times Magazine. Segundo ele, a idéia é de “mostrar que a vida das vítimas que aparecem no noticiário continua depois que elas saem das manchetes”. A mostra é uma promoção conjunta do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e Our World. Your Move. Quem estiver transitando por SP não deve deixar de ver a exposição que começa hoje(terça-feira), no Espaço Matilha Cultural, rua rego Freitas, 452. Informações e imagem do “Estadão’, edição dominical, pág. A20.

        Foi por volta de 1920 que utilizando o flash, o fotógrafo Arthur Felling Weegee começou a produzir as primeiras matérias policiais, nas madrugadas de Nova York. A imprensa começava a mostrar acidentes, assassinatos, suicidas, incêndios, prostitutas, drogados, travestis e pessoas dormindo nas calçadas. O mundo noturno.
        A legitimação da “cascata” corresponde ao fim do jornalismo como subversão. No espetáculo, vale tudo.   

OITICICA E OS PARANGOLÉS


Hélio Oiticica em abril de 1970

       Foi destaque nos principais jornais do país e do mundo, a notícia do incêndio que destruiu boa parte da obra do artista Helio Oiticica. Até agora não se sabe o que provocou o incêndio de sexta-feira e que atingiu o primeiro andar da residência da família, no bairro Jardim Botânico, zona sul do Rio. É evidente que também foi destaque (imediatamente) o confronto entre o tráfico e as forças policiais com a derrubada de um helicóptero da PM. Nessa parte do país, onde existe o pior jornalismo , o clima  no Rio é de guerra. Querra tipo Iraque, Afeganistão, Palestina e Nagasaki. Com chamada de capa na edição de hoje, segunda-feira. Matéria requentada.
       A perda de boa parte da obra de Oiticica não passou de um registro, de poucas linhas, na edição dominical. O jornal “Estadão” abriu uma página de seu Caderno de Cultura (dominical) para a importância de Oiticica. Os destaques (ou não) são sempre resultantes de decisões editorais. Uma obviedade, claro. O jornalismo sulista é ”isento”, pela direita. A opção GAÚCHA é sempre pela implantação do clima de medo (guerra) e pelo que existe de mais reacionário.
       Jornalistas trabalham com noções de comparação.
       AQUI, MAIS HÉLIO OITICICA.  (págs. editadas em 2006)

       “A imagem do pintor é total, a do cameraman é feita de múltiplos fragmentos”, como dizia Walter Benjamin. 

O RETRATO


Fidel no verão de 1955. Fotos como documentos.

        A revolução industrial acaba realizando o sonho de Diderot: a construção de uma grande enciclopédia. A fotografia, máquina da era das máquinas, procede a um grande inventário do mundo visível. Transforma o mundo do século passado em um grande álbum. A máquina fotográfica é da era da estrada de ferro, da navegação a vapor e do telégrafo. 
         Fotos digitais são fantasias, bens simbólicos. Impõem subjetividades (apenas) confirmadoras das imagens televisivas, do espetáculo. Não é por acaso que vivemos um mundo de “cascatas e campanas”. 
        As imagens produzidas circulam ao ritmo do poder econômico. São descartáveis. Fotografam, olham e deletam. As redações já recebem o material todo “editado”. Por isso mesmo são todos treinados na introjeção dos interesses empresariais.