Local em ruínas, Jenin, Cisjordânia – maio de 2002
No campo de refugiados de Jenin, uma mulher palestina sai das ruínas de sua casa, destruída por tratores de esteira do Exército israelense, que deixaram 4 mil pessoas desabrigadas. Este fotógrafo canadense estudou artes visuais na Universidade York, em Toronto. Começou, de fato, a atuar em fotojornalismo a partir de 1984, após uma temporada na Índia e trabalhar com música. Publicou alguns livros com a temática dos povos refugiados. Participou de coberturas na América Central. Seu livro “Then Palestine” é de 1999. E “The Mennonites”, sobre o modo de vida de uma seita religiosa no México, é de 2000. Nenhuma referência sobre a acumulação de dezenas de prêmios.
Todos os indicativos de que possui uma ampla cultura. Examinando suas fotos não encontramos nenhum traço de que tenha trabalhado, em área de refugiados, com a prática da “campana”. Lendo sobre a vida destes fotógrafos e examinando o material que cada um deles já produziu só podemos chegar a uma conclusão: a mídia corporativa, na atualidade, com raríssimas exceções, não faz mais fotojornalismo. Os atuais fotógrafos, com raríssimas exceções, são indigentes intelectualmente. Gente tosca. Ou, no mínimo, aceitam o convívio pacifico com os produtores de imagens para a venda de sucrilhos.
As referências são da Coleção Folha Grandes Fotógrafos, n.10/Refugiados.
Rebecemos este e-mail da ex-aluna Veridiana:
“lembrei de ti ao ler uma matéria sobre fotojornalismo publicada no La Republica em 18.09.2009. Te envio um pequeno trecho da entrevisa do fotógrafo italiano Roberto Koch, em meio a matéria sobre a divulgação de duas fotos, em cores, que retratam o último dia da II Guerra Mundial. As fotos foram feitas por um soldado quando da assinatura do termo de capitulação da Alemanha. O que chamou a atenção é a resposta do fotógrafo à pergunta do La República.
Por que esta emoção cada vez que reemerge uma imagem de um evento do qual os historiadores já conhecem tudo?
Roberto Koch – Porque a fotografia não é um livro de história: há mais de um século os fotógrafos não nos contam apenas os eventos, mas nos transportam à sua presença. Sem o que diz o historiador, é verdade, não entenderíamos nada do que vemos, mas os documentos históricos não nos dizem nada sobre as expressões, sobre a pose dos protagonistas, sobre os detalhes, os hábitos, as bolsas, os costumes, a bandeira… A fotogafia oferece um contato físico com a história.”
Um grande abraço meu e do Juliano, Veri.
Este é Miroslav Tichý. Um fotógrafo, literalmente, marginal. Nunca se submeteu aos totalitarismos da antiga ex-Checoslováquia. Só há uns três ou quatro anos passou a ser mais conhecido. Se interessou por fotografia a partir dos anos 60, após ter passado uma temporada na cadeia por motivos políticos. A partir daí, também, assumiu a atitude marginal e deixou de lado todos os cuidados com a aparência. Para manter a coerência passou a fabricar seus próprios equipamentos a partir de sucata. Fotografava de forma absolutamente discreta. Mesmo considerando a figura e os equipamentos usados. Tinha como norma fazer cerca de no mínimo 100 fotos por dia. Seu interesse central eram as mulheres. Dos muitos negativos que fazia revelava poucos. Tirava uma única cópia, colava as fotos em cartões e a seguir desenhava a lápis as molduras. Durante a juventude esteve ligado ao movimento Expressionista. Sua formação foi na Academia de Artes de Praga.
Equipamento básico de Miroslav e construído por ele.
Procuramos evitar a simples reprodução de material pesquisado na Internet. Damos, sempre, preferência à utilização de material de nosso acervo. Pela singularidade resolvemos dar este formato ao que descobrimos navegando por este sítio. Miroslav, já bem velhinho, continua produzindo seus equipamentos a partir de sucatas. Não existem referências sobre algum prêmio que tenha ganho com suas fotos. Vai para a história da fotografia.
É um gênio. Um marginal.
“Ao ver essa foto, fico imaginando o Cartier-Bresson lá no alto da escada, esperando o momento em que todos os elementos da cena vão se movimentar a favor de uma composição luminosa, o momento em que algo opaco passa então a ser brilhante. Essa imagem tem muito disso: mostra a disposição do fotógrafo em lidar com o imprevisto, o imponderável. Porque Cartier-Bresson não tinha, naquele momento, controle sobre as pessoas que aparecem na fotografia. Também não tinha controle sobre a luz, que muda com as nuvens se mexando no céu, por exemplo. E é fascinante como ele conseguiu em uma fração de segundo juntar tudo a seu favor, a favor da beleza da imagem. Impressiona como parece que ele arrumou cada mulher, cada criança, como se tivesse uma pinça, colocando, de forma precisa e preciosa, todas elas em seu devido lugar. Olho a foto e penso nesse fotógrafo pioneiro em pé na escada, intuindo o que iria acontecer para, enfim, captar esse momento surpremo. A fotografia traz um ziguesaque formado pelo gradil, que estrutura a composição. O arco fecha o campo e dentro dele as pessoas se postam em um equilíbrio perfeito, como se tudo tivesse passado pelo filtro mágico de seu olhar. Cartier-Bresson nos ensina a ver. Vi uma obra de Cartier-Bresson pela primeira vez na biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universdiade de São Paulo. Abri o livro Imagens à la Sauvette (Imagens furtivas) e me deparei lá com uma imagem de um casal de noivos: ela em pé sobre um balanço e ele dando o impulso. Era uma cena banal tornada comovente. Fiquei perplexo. E decidi ali ser fotógrafo.”
(Crisitiano Mascaro é fotógrafo, autor do livro “Cidades Reveladas”, da Bei Editora/ artigo publicado pela revista Bravo – setembro de 2009, cuja foto de capa é de Cartier-Bresson com a chamada “O pescador de flagras”)
Uma ex-aluna me indicou a leitura. Decidi que queria ser jornalista quando li livros de John Reed. Ele dizia: “descobri que só me sinto feliz ao trabalhar intensamente em algo que gosto”. Em torno desse mesmo momento ouvi falar de Cartier-Bresson e da máquina fotográfica Leica. Sonhei que um dia teria uma máquina de escrever Remington e uma Leica. Já escrevi que sou o mesmo e sou um outro. Sou gauche. Nasci torto. Filho de comunista não consigo abandonar a idéia de que um dia conseguirei ser um intelectual. Pescar flagras, em imagens e textos, é uma coisa luminosa. De pessoas luminosas. Venho tentando receber esta luz e com absoluta humildade.
Não abro mão da idéia de que JORNALISMO é subversão. ”Fotocampana”, por exemplo, não é fotojornalismo. É cartografia policial. Ambições secretas do MST é fantasia do showrnalismo. A luta por reforma agrária é escancarada.
Jornal “Folha de São Paulo”, edição de segunda-feira, 21.09.2009, página A3. Não estamos afirmando que um jornal seja melhor do que o outro. Eles se alternam na sacanagem contra os movimentos sociais. Segue um trecho: ” O ódio das oligarquias jamais perde de vista um desses novos intrumentos de organização e luta: o MST. Esse movimento paga diariamente com suor e sangue – como há pouco no Rio Grande do Sul – por sua ousadia de questionar um dos pilares da desigualdade: o monopólio da terra (…) é por essa razão que se arma uma nova ofensiva dos setores mais conservadores da sociedade contra o MST – no Congresso, NOS MONOPÓLIOS DE COMUNICAÇÃO e nos lobbies de pressão nas esferas de poder. Trata-se de criminalizar um movimento que se mantém como uma bandeira acesa, inquietando a consciência democrática do país (..)”
Artigo assinado por Plínio de Arruda Sampaio, Pedro Tierra e Osvaldo Russo.
A FOTO
Uma manifestação palestina contra ataque de tanques israelenses que matou dois militantes do Hamas. Jornal “Folha de SP”, edição de 21.09.2009, página A14. É de Marco Longari/France Presse. Não tem nenhum indicativo de ”cascata”.