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DEAMBULAÇÕES URBANAS, DELIRANTES

   “As grandes cidades são favoráveis à distração que chamamos de deriva. A deriva é uma técnica de andar sem rumo. Ela se mistura à influência do cenário. Todas as casas são belas. A arquitetura deve se tornar apaixonante. Nós não saberíamos considerar tipos de construções menores. O novo urbanismo é inseparável  das transformações econômicas e sociais felizmente inevitáveis. É possível pensar que as reivindicações revolucionárias de uma época correspondem à idéia que essa época tem da felicidade. A valorização dos lazeres não é uma brincadeira. Nós insistimos em que é preciso inventar novos jogos.”
   “O urbanismo não existe: não passa de uma ‘ideologia’, no sentido de Marx. A arquitetura existe realmente tanto quanto a Coca-cola é uma produção envolta em ideologia, mas real, satisfazendo falsamente uma necessidade forjada; ao passo que o urbanismo é comparável ao alarido publicitário em torno da Coca-cola, pura ideologia especular. O capitalismo moderno, organizado de modo a reduzir toda a vida social a espetáculo que não seja o da nossa própria alienação. Seu sonho de urbanismo é sua obra-prima.”
    “A psicografia seria então uma geografia afetiva, subjetiva, que buscava cartografar as diferentes ambiências psíquicas provocadas basicamente pelas deambulações urbanas que eram as devivas situacionistas. Algumas dessas derivas eram fotografadas – algumas de suas fotocolagens eram vistas como mapas ,(…)”
   “Ter uma vida significa criá-la e recriá-la sem parar. O homem não pode ter uma vida se não a criou por si mesmo. Quando a luta pela existência for apenas uma lembrança, ele poderá, pela primeira vez na história, dispor livremente de toda duração de sua vida. Conseguirá, com plena liberdade, moldar na sua existência a forma de seus desejos. Em vez de ficar passivo diante de um mundo que não o satisfaz, ele vai criar um outro, onde  poderá ser livre. Para poder criar sua vida, precisa criar esse munto. E essa ciação, como a outra, são parte de uma mesma sucessão ininterrupta de recriações. Nova Babilônia só poderá ser obra de seus habitantes, unicamente reduto de sua cultura. Para nós, ela é um modelo de reflexão e jogo.”

######### textos do livro ”Internacional Situacionista – Apologia da Deriva/ escritos sobre a cidade”, editora Casa da Palavra. FOTOS – com a Holga (lomografia), filme Fugicolor X-TRA, 400 asas. Sem qualquer manipulação digital. Imagens “scaneadas” dos negativos 6×6. Maio de 68 na França era Situacionista. Um dia ainda conseguiremos. Sim, conseguiremos apurar nosso “olhar” jornalístico. Em tudo que fazemos temos um lado. Gauche. 

Paulo Francis – Você acha que a criação artística expressa o quê? Tem alguma conexão com a realidade? É sintoma, ou reflexo da sociedada, ou mera extravasão de cuca?
Hélio Oiticica – Eu acho que o trabalho criador não é nem sintoma nem reflexo da sociedade. Pode ter alguns sintomas e alguns reflexos, mas não não é uma coisa ou outra. Eu acho que o trabalho criador propõe uma nova sociedade. É exatamente aí que eu acho que todo esforço criador tem um lado marginal, um lado marginalizado, é uma coisa que nunca está condicionado ao que existe, ao que é, ao status quo. Por isso que acho que não pode ser nem sintoma nem reflexto.” (Paquim/06.08.1970)

AUDITÓRIO

Auditório Araújo Vianna, agosto de 2009,
primeiras horas da manhã. A imagem atual
do abandono. Depois de privatizado e
reformado ocupará páginas e mais
páginas da “livre imprensa”. Será mais uma
“belezura dos gaúchos”. Máquina Rolleiflex,
filme Ilford HP5Plus, 400 asas, pb, reprodução
“scaneada” do negativo 6×6, Contraste
automático no Photoschop. Resolução média.

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