EXTERMINADOS PELO CRACK
Cara, lá na vila, meus amigos tão na loucura. O cara vendeu tudo que tinha em casa pra comprar pedra. Tem uma mina que era gorda que, agora, tá um palito. Cheguei na casa de uma pinta com uma carne e o cara não conseguiu nem comer. Pegou os três pilas que eu tinha e foi buscar umas pedras. E um trafica da área deu a seguinte explicação: o negócio é dinheiro. Maconha a pinta gasta 10 pila e fica fumando por dois, três dias. A pedra, não. O cara gasta tudo indo vinte vezes na boca, de dez em dez minutos. O pessoal do asfalto, de carro ou de táxi, vem aqui buscar uma buchinha (pó, cocaína). A boca fatura das 23 horas às 11 horas da manhã do outro dia (uma jornada de trabalho), em torno de uns onze mil. Repassa três mil pros alicates* (policiais), nas sextas, e fica tudo limpeza. Os motoras dos táxis também levam uma “bêra”. Tem mina, algumas bem bonitas, dando o cu pra três, quatro pintas pra ganhar umas pedras. E transam sem camisinha. De brincadeira perguntei à mina que era gorda se tava fazendo regime e ela me respondeu que sim. Ela disse que era o regime da latinha (latinha para queimar a pedra). A seguir, colocou cinza de cigarro num cachimbinho, colocou a pedra e ainda deu a seguinte explicação: ” nada de isqueiro, o melhor é com fósforo pra pedra queimar mais lento.” Dentro do barraco só tem a cama e uma mesa. O resto, televisão, liquidificador e outros bagulhos já foram trocados por pedra. Ficam descoordenados, vendo coisas, fissurados. Fico só olhando. Tudo gente da minha idade. Os que estão com mais de vinte já tiveram na cadeia. Conheço só um que depois da cadeia largou o vício e trabalha com carteira assinada. Fim de semana é de arrepiar. Quando o passe é livre – passagem de ônibus – a vila desce pras praças. Até na Usina do Gazômetro (POA), onde o pessoal ficava fumando e olhando o pôr-do-sol do Rio Guaíba, já tem fissura de pedra. Não existe nada para ajudar. Nenhum tipo de assistência. Só “pé-de-porco”, dando atraque, porrada e recolhendo o seu. E essas pintas ficam falando em Cracolândia, no centro da cidade, ou em roubo de caranga pra desmanche. Isso é piada. Ninguém se importa que os jovens da periferia tão se matando. (wu)
Durante muito tempo o P-RBS trabalhou com esta lógica, a da criminalização. Após esta edição de 03.10.2003 o aparelho policial foi conferir e não encontrou nenhuma “pedra”. A atividade de cartografia não funcionou. Localizaram uma cracolândia, no centro, mas sem crack. Enquanto estivermos sob ameaça (censura) não pretendemos realizar o monitoramento das sacanagens diárias da mídia corporativa. Realizamos esta postagem apenas por pressão dos militantes do Centro de Estudos Comparados das Sacanagens da Mídia Corporativa, entidade filiada à Liga Internacionalistas dos Exus Esquerdistas.
**”alicates” – policiais que apertam, arrocham as bocas levando uma grana.
Nunca esqueço do Marcos Faerman (Marcão) dizendo que jornalista, quando está diante da máquina de escrever, deve imaginar o formato gráfico (edição) de sua matéria. Havia uma preocupação com o conteúdo e a forma. Alguns anos depois fui Secretário Gráfico de Zerolândia. No final da década de 70. Ainda hoje, em sala de aula, valorizo tal idéia. Acho que entendo alguma coisa sobre a questão. Gostaria muito de analisar a última reforma gráfica do jornaleco. Falar sobre as fotos usadas, as páginas coloridas, os anúncios “integrados”, o tamanho dos textos e a “extrema facilidade” de leitura. Páginas com desenho de Internet. Bem apropriadas ao emburrecimento. Continuo sob censura. Agradeço a todos que continuam trafegando pelo sítio e blogpontodevista. É bem verdade que este afastamento, forçado, acabou possibilitando uma grande melhora da minha saúde mental. Estou conseguindo ficar mais louco. Grandes derivas. Infindáveis.
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não possa comentar, comparativamente, as últimas matérias do jornal “Estadão” sobre o circuito do crack, no centro da cidade de São Paulo e o showrnalismo de “Crack nem pensar”, de Zerolândia. Ou digo o que penso ou fico mudo.
O novo Parque Gráfico e a respectiva reforma do jornaleco tornou o conteúdo mais voltado para o emburrecimento geral. Não se trata de implicância ou de gosto. É uma opinião.
RBS NEM PENSAR (II)
O que há por trás da campanha contra o crack…
TV é droga. A RBS engambela a população de SC e RS, de modo apelativo e pouco disfarçado. A campanha “crack nem pensar”, é mais uma estratégia de marketing, da sobrevivência do monopólio televisivo em incutir o medo e a nóia na mente da audiência, através do sensacionalismo. O crack está no nosso trabalho, no nosso prato de comida, nos ônibus urbanos, além da telinha, está sendo embutido no imaginário dia após dia. Um novo “ente” projetado para alarmar a sociedade. Destruindo lares. Ceifando vidas. Enfim, “protejam seus filhos”!
Sim, pois o que motiva a tal campanha é o fato da “pedra” estar sendo consumida constantemente pelos filhos da classe-média. Se ficasse só restrita aos pobres, tanto faz. Pobre que se exploda, como dizia Justo Veríssimo, um dos personagens de Chico Anysio nas antigas. No entanto, a “pedra” é barata. É uma merda, sim. Não “expande” a consciência como o LSD, nem relaxa como a Cannabis. Além de causar danos irreversíveis ao cérebro. Mas é um estupefaciante mais acessível, e não só aos pobres, como a qualquer cidadão que queira curtir um “barato” a mais.
Nisso mergulha a juventude classe-mediana. O mesmo “público-alvo” que poderia consumir a cocaína, mas devido ao alto preço da “branca” não vale a pena se arriscar a subir o morro, e entrar numa roubada, seja na mão de um traficante ou da polícia. O crack se dissemina e pode ser encontrado em qualquer esquina. Como foi dito, mais barato e acessível.
Por trás disso, há um abalo sensível neste mercado ilícito. Se os ricos não estão consumindo mais o pó como antigamente, algo precisa ser feito. Como sabemos, magnatas estão por trás do narcotráfico. São políticos, empresários, militares e outros próceres influentes na vida social e na alta sociedade que cheira pacas. Ou que está “tecando” menos? É improvável que possa existir algum “tecômetro” para medirmos o quanto os vips estão metendo o nariz ou não.
À boca miúda corre a lenda de algumas figuras notórias e públicas que estejam envolvidas com o consumo e o tráfico da parada. Colunistas sociais, artistas, apresentadores, repórteres, enfim, no meio showrnalístico tem muito doidão. Nomes são falados, no entanto sem conter o ônus da prova. E por extensão, se especula que até donos de meios de comunicação bastante conhecidos também estão metidos (até o nariz) no bagulho.
A letra tá dada… (De JuccA Sassafrás)
Não acrescentei ao texto anterior a informação de que, nos últimos anos, os cursinhos de “comunicologia”, das universidades federais, foram modernizados para o atendimento da demanda das empresas da mídia corporativa. Cursinhos técnicos da perfumaria. É o Estado, o público à serviço do privado. No mesmo período, as instituições de ensino privado deixaram de investir em tais cursinhos. Os barões da mídia corporativa, certamente, sinalizaram quais eram os seus interesses. Acreditamos que, assim, com o fim do diploma haverá uma tendência de fechamento dos cursos das instituições privadas (ningém vai pagar por um diploma que não vale nada) e uma valorização do ensino técnico das federais. Diplomas do ensino técnico e público serão bem vindos. O Estado é um aparelho a serviço da elite em sua produção de bens simbólicos.
Imerso em meus delírios loucos tenho às vezes rarissímos rasgos de lucidez. Como JORNALISTA mantenho o velho hábito de pensar, criticamente. Por sorte quase nunca acerto!!!! Gauche.
ESCRITO EM ABRIL DE 2003
DIPLOMA DQUÊ?
O fim ou a não da exigência do diploma de jornalista – para o exercício da profissão – não determinará uma mudança radical no jornalismo, hoje, desenvolvido pela mídia corporativa. Uma grande massa de profissionais (atualmente jovens que saem dos cursos de comunicologia) continuará trabalhando, transferindo informações de um lado para outro, sem qualquer controle sobre o processo. E as empresas com a contratação de “não-jornalistas especializados”, nas mais diversas áreas, irão “qualificar”, as informações que a elite necessita além, é claro, de melhorar o grau de eficiência “no controle da opinião pública”. Teremos um “jornalismo RP” (relações públicas) do mais “alto nível”. A elite também assim terá maiores garantias de que a mídia corporativa continuará contribuindo expressiva e decisivamente para a manutenção da democracia. A grande massa das redações, cujos salários são os mais baixos na história da profissão, não mais precisará se submeter aos quatro anos dos cursos de comunicologia, passando a receber treinamento em cursinhos técnicos de curta duração. Quanto mais fragmentada a formação da mão-de-obra – para este setor de produção de bens simbólicos e de subjetividades – mais eficiente será o processo de manipulação, tanto ao nível da produção como da regulação social. Ou abrimos espaço para uma verdadeira revolução no ensino de jornalismo, ou os cursos perderão por inteiro a função para que, originalmente, foram criados. Ou se ligam, definitivamente à indústria pesada da comunicação e cumprem o papel de cursinhos técnicos de formação de mão-de-obra, ou serão substituídos por verdadeiras escolas técnica financiadas e apoiadas – sob todos os aspectos – por essa mesma indústria. Um outro caminho poderá ser construído, cujos resultados só serão sentidos a longo prazo, após a formação de algumas gerações. É evidente que este caminho terá que ser resultante de uma ação coletiva – no seu sentido mais amplo – em que os acadêmicos terão um papel importante, mas decisivas deverão ser as contruibuições dos mais variados setores da cidadania. Mesmo diante da complexidade da questão é possível reafirmarmos nossa posição contrária aos cursinhos técnicos e a todos os mecanismo que priorizam o aprendizado voltado para o simples manuseio de equipamentos. É preciso acabarmos com as faculdades de comunicologia e criarmos verdadeiros cursos de jornalismo. Cursos inseridos e vinculados à área de ciências sociais. Que na mídia corporativa se institua o exercício do “jornalismo” (da manipulação) sem diploma, tudo bem. Não muda nada. Em contraposição, que o novo jornalismo – a ser construído – seja realizado por novas gerações com grande formação humanística. (WU)
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