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Escrito em outubro de 2005

EXTERMINADOS PELO CRACK

         Cara, lá na vila, meus amigos tão na loucura. O cara vendeu tudo que tinha em casa pra comprar pedra. Tem uma mina que era gorda que, agora, tá um palito. Cheguei na casa de uma pinta com uma carne e o cara não conseguiu nem comer. Pegou os três pilas que eu tinha e foi buscar umas pedras. E um trafica da área deu a seguinte explicação: o negócio é dinheiro. Maconha a pinta gasta 10 pila e fica fumando por dois, três dias. A pedra, não. O cara gasta tudo indo vinte vezes na boca, de dez em dez minutos. O pessoal do asfalto, de carro ou de táxi, vem aqui buscar uma buchinha (pó, cocaína). A boca fatura das 23 horas às 11 horas da manhã do outro dia (uma jornada de trabalho), em torno de uns onze mil. Repassa três mil pros alicates* (policiais), nas sextas, e fica tudo limpeza. Os motoras dos táxis também levam uma “bêra”. Tem mina, algumas bem bonitas, dando o cu pra três, quatro pintas pra ganhar umas pedras. E transam sem camisinha. De brincadeira perguntei à mina que era gorda se tava fazendo regime e ela me respondeu que sim. Ela disse que era o regime da latinha (latinha para queimar a pedra). A seguir, colocou cinza de cigarro num cachimbinho, colocou a pedra e ainda deu a seguinte explicação: ” nada de isqueiro, o melhor é com fósforo pra pedra queimar mais lento.” Dentro do barraco só tem a cama e uma mesa. O resto, televisão, liquidificador e outros bagulhos já foram trocados por pedra. Ficam descoordenados, vendo coisas, fissurados. Fico só olhando. Tudo gente da minha idade. Os que estão com mais de vinte já tiveram na cadeia. Conheço só um que depois da cadeia largou o vício e trabalha com carteira assinada. Fim de semana é de arrepiar. Quando o passe é livre – passagem de ônibus – a vila desce pras praças. Até na Usina do Gazômetro (POA), onde o pessoal ficava fumando e olhando o pôr-do-sol do Rio Guaíba, já tem fissura de pedra. Não existe nada para ajudar. Nenhum tipo de assistência. Só “pé-de-porco”, dando atraque, porrada e recolhendo o seu. E essas pintas ficam falando em Cracolândia, no centro da cidade, ou em roubo de caranga pra desmanche. Isso é piada. Ninguém se importa que os jovens da periferia tão se matando. (wu)

Durante muito tempo o P-RBS trabalhou com esta lógica, a da criminalização. Após esta edição de 03.10.2003 o aparelho policial foi conferir e não encontrou nenhuma “pedra”. A atividade de cartografia não funcionou. Localizaram uma cracolândia, no centro, mas sem crack. Enquanto estivermos sob ameaça (censura) não pretendemos realizar o monitoramento das sacanagens diárias da mídia corporativa. Realizamos esta postagem apenas por pressão dos militantes do Centro de Estudos Comparados das Sacanagens da Mídia Corporativa, entidade filiada à Liga Internacionalistas dos Exus Esquerdistas.

**”alicates” – policiais que apertam, arrocham as bocas levando uma grana.

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