MEU SILÊNCIO É UM MANIFESTO

Continuo sendo censurado. Estou impedido, como jornalista e professor da UFRGS, de continuar exercendo a atividade de crítica à mídia local.
Todas as vezes que se apresenta no Largo Glênio Peres, centro de Porto Alegre, Vino Amaral reúne um bom público. O povão gosta de sua música. Uma oportunidade para o registro de rostos de nosso povo.
Não é um jovem e nem tão pouco um rosto bonito pelos padrões da mídia corporativa. Esta imagem não tem lugar no showrnalismo. Fotojornalismo é rebeldia, permanente.
Assim como este rosto também não. Showrnalistas trabalham, cada vez mais, com os padrões da revista Caras. Estou proibido de ser mais específico. E poderia – a partir desta sequência de fotos – estabelecer importantes diferenças com o showrnalismo.
Este é um rosto de uma brasileira. Robert Capa dizia: “se a sua foto não está boa é porque você ainda está distante de seu objeto.” Estou impedido de especificar e fazer comparações.
Fotocampana não é fotojornalismo. O jornalista é antes de um tudo um negociador. Negociamos por nossa habilidade em conversar, por um olhar, por um gesto e, antes de mais nada, pelo fato de que devemos ser sempre grandes “escutadores”. Antes de escrever, escutamos. Fotojornalista tem um lado. Nosso olho não é isento.
Esta estranha figura assistiu toda a apresentação de Vino Amaral. Esta postagem teria um outro conteúdo – de sentido comparativo- com fotos da edição de hoje de Zerolândia.
Um rosto profundamente marcado pela velhice é bonito. Um olhar que sugere uma história. As ruas são grandes seres vivos.
Enquanto estiver submetido ao silêncio vou tentar, sem arrogância ou pretensão (como sempre), apontar o quanto é pobre o showrnalismo voltado para a cidade. É só release e foto/divulgação. Ou fotos de buracos. Assim, mais uma vez, pretendemos mostrar que jornalismo é subversão. O que aí está é perfumaria, das “gentes jovens e bonitas”. Todas estas fotos foram feitas com uma lente 55mm.
É prefeitamente compreensível que o Sindicato dos Jornalistas não tenha dito nada sobre a censura a Pontodevista. Não consigo entender a demora da UFRGS em se pronunciar sobre o mesmo fato, considerando que sou apontado , nos últimos 20 anos, em todos os processos de avaliação, como sendo o melhor professor do curso de jornalismo. É a primeira vez que estou usando esta informação. O conteúdo do nosso trabalho sempre esteve voltado para o ensino.
Existirá ou não a denominada rede de conivências corporativas. Qual a sua opinião?
O “olhar do povo” é frequentemente embotado pelas imagens da mídia corporativa. Existe uma disputa – luta de classes – na produção de imagens como bens simbólicos. A mídia corporativa joga pesado. Este era olhar de quem estava atento à musicalidade de Vino Amaral.





Ana Mesquita — 2/04/2009 @ 08:48
Espero que a censura não perdure, mas é eloquente seu silêncio.
Patrícia Benvenuti — 2/04/2009 @ 10:42
Vamos fazer de conta, professor, que ninguém está falando nada em relação à censura ao blog por causa da discussão circense sobre o diploma. Vamos fingir que acreditamos.
Rock é Rock Mesmo — 2/04/2009 @ 13:40
Aí professor, assim como a censura da ditadura militar obrigou JORNALISTAS a inventarem formas de expressão subversiva, a censura da ditadura corporativa lhe fez radicalizar no verdadeiro sentido do JORNALISMO. Os textos dos últimos dois dias falam mais por si só do que qualquer tipo de comparação. O amigo está mesmo flanando, e para o nosso bem isso tem inspirado ótimas REPORTAGENS.
Parabéns WU, e vamo que vamo!
Prestes — 2/04/2009 @ 17:17
Retratos fantásticos! Se continuares com essas aulas, nem precisas mais citar o F…
Alexandre Haubrich — 2/04/2009 @ 18:22
Esse é o verdadeiro jornalismo.
A importância do teu trabalho como repórter aqui é tão grande quanto a do teu trabalho como crítico de mídia.
O verdadeiro jornalismo vai perdurar como História, enquanto o showrnalismo e o “foto-showrnalismo cascateiro bernardino” vai morrer com os cágados do Parcão e ficar para a posteridade como uma mancha na imprensa gaúcha.
João — 3/04/2009 @ 03:34
Assino embaixo do Rock e do Haubrich, com uma pequena discordância: a cascata não entrará para a posteridade nem como mancha…Alentador, mestre, voltar a ler tuas reportagens. Quem é gênio segue gênio mesmo sob censura. Dois posts e se aprende mais sobre jornalismo do que em quatro ou cinco semestres de comunicologia.
JÚLIA MASSON — 5/04/2009 @ 13:24
Quando te encontrei capturando as imagens aqui publicadas e tantas outras que por motivos diversos aqui não estão, de imediato, tive a certeza que, SIM, existem fotógrafos, jornalistas, profissionais da mídia, que de uma forma “MÁGICA” conseguem registrar de forma verdadeira, quem somos, quem são os brasileiros, quem são os gaúchos, anônimos ou não que, verdadeiramente, ofereçem personalidade a cada praça, a cada rua, a cada evento. Não somos, como retrata a mídia tradicional, esteriótipos perfeitos; imperfeitos sim, VERDADEIROS BRASILEIROS !!!