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JORNALISMO SE FAZ FLANANDO

         Continuo sob censura. Com ou sem diploma. Não consigo ficar sem escrever e fotografar. Nos últimos tempos faço registros em vídeo. E não sou multimídia. Sou jornalista que faz, flanando. Nas ruas existe pulsação. Vida. Em muitos casos doída, é verdade. Perdemos os limites. Queremos todas as histórias. E todas são grandes histórias. Com o sentido de intensidade que todo jornalista deveria ter. Em algum momento vamos encontrar João do Rio. Estou sempre procurando por ele. Sentamos ao lado destes dois moradores de rua e durante quase uma hora escutamos grandes ensinamentos. Sim, de vida. Eles falam em liberdade. Eles usam esta palavra. Fiquei emocionado. Não lembramos a última vez que escutei um estudante de “comunicologia” usando esta expressão. Nenhum blábláblá.   Casimiro (D) e Antônio vivem nas ruas. Casimiro quase não fala e diz nunca ter estudado. Antônio tem segundo grau incompleto e conta que já encontrou um livro de Dostoiévski no lixo. E leu.  Declamou uma poesia que não consiguimos reproduzir. Não usamos gravador e bloco de anotações.Tentam viver do lixo reciclável. A crise para eles não é ficção. Circulam por uma avenida de um bairro comercial e de classe média de Porto Alegre. Pela manhã vendem o material recolhido e arrecadam, diariamente, em torno de cinco reais. Antônio diz que a vida nas ruas é dura, mas não abre mão de um das coisas mais importantes, segundo ele, a liberdade.
   Em nenhum momento nos sentimos ameaçados. Sentado ao lado deles tentei ser um igual. É impossível se ter a dimensão do que é viver nas ruas. É preciso dizer a estas pessoas, de saída, que você não é da grupolândia (PRBS). A que criminaliza pedintes. Que você está ao lado deles. Não oferecemos dinheiro em troca da foto ou de uma declaração. Acreditem, prática bem comum no showrnalismo. Assim, cada vez mais tenho a certeza de que não existe a “Casamata do crime”, os “Falcões do Sul”; e, muito menos ainda “O estatuto do desarmamento bandido da Vila Cruzeiro”. Abri a niqueleira na frente deles, antes de me despedir, e mostrei as moedas. Entregamos  cinco reais. Era o que tínhamos de grana. Estamos arrebentando com os limites. Jornalismo se faz tendo um lado e com grande carga de emoção. Também presenciamos o espanto dos que passavam. Como que um cara com uma câmera digital estava ali. Sentado e conversando com “pedintes”. Jornalistas não participam de  coletivas. Não são anotadores de declarações de autoridades. Não aceitam orientação de só fotografarem gente bonita. Ou só jovens.
       Vamos continuar procurando a alma das ruas. Nos  bares, lancherias e restaurantes frequentado pelo povo. É onde escutamos as verdadeiras verdades. Todos os dias temos uma história como esta. Almas, utopias e procuras. Agradeço todas as manifestações de solidariedade. Precisamos, apenas, de um tempo para pensar  novas transgressões.
        Nasci torto. Sou gauche.

**** continuo sendo censurado. Como professor de jornalismo da UFRGS estou impedido de fazer comentários sobre algumas práticas.  E a Universidade não vai dizer nada? O conteúdo, tanto da revista como do blog, era utilizado como material didático. A iniciativa é ou não do P-RBS (Partido Rede Brazil Sul de Comunicações)? A iniciativa é apenas do funcionário de carreira com 40 anos de firma? Quem vai se responsabilizar (e pagar) pelos 10 anos de trabalho, voltado para o ensino de jornalismo, que fui obrigado da retirar da rede?

***** divulgem que estou retomando as postagens diárias. Texto escrito na primeira hora da manhã, primeira versão e sem qualquer revisão.

##########REVISTA VEJA DERROTADA NO PROCESSO CONTRA LUIS NASSIF. leia aqui. A postagem é de 01.04.2009.

4 Comentários »

  1. Paulo Augusto — 1/04/2009 @ 14:14

    WU,
    Esta história de livro no lixo tem permitido algumas pequenas revoluções. Em Encruzilhada do Sul a Cooperativa de Catadores montou duas Bibliotecas Populares com o material catado. Hoje, em dois bairros periféricos daquela cidade o povo tem acesso acesso à leitura e informação. A iniciativa foi recentemente premiada pelo Ministério da Cultura e vão ganhar mobiliário, computador e livros novos. Maiores informações com uma das coordenadoras da Cooperativa pelo emeio sirleimsl@yahoo.com.br .

  2. Muitas novidades e um trote no Primeiro de Abril « Jornalismo B — 1/04/2009 @ 23:38

    [...] Antes de qualquer coisa é preciso dizer o mais importante: o metajornalista e pós-professor universitário Wladymir Ungaretti voltou com tudo em seu blog. O primeiro post não poderia ser melhor: Ungaretti exercitando sua verve narrativa nas ruas de Porto Alegre. E é só você clicar aqui pra conferir. [...]

  3. Alexandre Haubrich — 2/04/2009 @ 18:19

    Que bom que voltas a mais essa trincheira, Ungaretti. E voltas com tudo, pelo jeito.
    Sobre a situação dos moradores de rua, indico o livro “Cama de Cimento”, do jornalista Tomás Chiaverini. É um retrato interessante e abrangente dessa situação em São Paulo, sem preconceitos, sem juizos de valor, tentando entender de alguma forma.
    Vida longa ao Ponto de Vista!

  4. Nem assim tão nova « LA VIEJA BRUJA — 3/07/2010 @ 22:53

    [...] tal enfrentamento, como Wladimir Ungaretti, sofre na pele as consequências de sua petulância. A censura prévia a Wladimir Ungaretti, que provavelmente tem o dedo institucional do Grupo RBS, é um dos mais [...]


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